15 de dezembro de 2011

Recomeço

Nos últimos dias, mantive contato com pessoas que considero heróis. Na conversa que tive com eles, não fui informado de que em qualquer momento  da vida tenham mergulhado no mar bravio para salvar alguém ou que tenham se jogado na frente de uma carreta para impedir um atropelamento.
Enfim, eles não preenchem os perfis megalomaníacos ou trágicos que são buscados pela maioria dos veículos de informação pautado pelo sensacionalismo.

Conversei com Anderson Luiz Pires, de 32 anos, residente em Várzea Paulista, João Barbosa da Silva, de 42, e Carlos Alberto Gonçalves Guerra, de 47, esses dois residentes em Campo Limpo. O que eles têm em comum é a garra de retomar as rédeas da própria vida através da educação.
Eles pararam de estudar na infância ou adolescência por diversos motivos. Desde distância da escola até por achar que estudar seria dispensável. Os motivos de interrupção da vida acadêmica, agora, pouco importam. O que, de fato, entusiasmou-me, profundamente, foi a disposição deles por recomeçar.

Tiveram que vencer, primeiro, a si mesmos, uma vez que a idade parece ser impeditivo para a volta à escola. A vergonha, o medo de enfrentar o novo, o receio para sair da zona de conforto são inimigos relevantes. Após dar o primeiro passo, irem até uma unidade escolar (nestes casos Emef Nair Ronchi Marchetti e Emef Vila Thomazina), tinham que vencer o leão e urso do cansaço e desânimo todos os dias.
Depois de jornadas exaustivas de trabalho como zelador de uma chácara, no caso do João Barbosa, e como entregador externo de uma rede varejista, no caso do Anderson Pires, o corpo cambaleava e pedia tudo, menos, sair de casa, pegar ônibus e ficar mais três horas estudando.
Para Carlos Guerra a  rotina não era de trabalho, uma vez que se tornou beneficiário da Previdência Social. No entanto, precisa vencer as consequências de um acidente de trabalho, em 2010, e de uma cirurgia para a retirada de tumor com 13cm na região da clavícula, em 2007.

A despeito de todas as dificuldades e limitações, esses heróis escolheram o caminho mais penoso, porém mais justo e igualitário da promoção pessoal: o estudo. Como bem disse Carlos, "sem estudo, o ser humano não tem qualificação".
Muito mais que melhorar o currículo para o mercado de trabalho, as mudanças na mentalidade, a nova visão de mundo, a disposição para a busca pelo conhecimento são conquistas ainda mais importantes.

Anderson encara o momento como "uma nova página". Agora, ele se sente redator  da própria história e sente-se renovado por dentro. "É uma nova vida. Estou me sentindo uma criança". Todas essas conquistas foram na formatura do Programa para Educação de Jovens e Adultos (EJA) - turma 2011.

Quiçá, outras centenas, milhares de brasileiros consigam fazer como esses nossos heróis. Provavelmente, eles nunca vão se tornar pauta para o Jornal Nacional, mas isso não importa. Eles são agentes transformadores da nossa sociedade.
Concluo esta coluna parabenizando e agradecendo às famílias desses e de outros formandos. Sem dúvida, os filhos, cônjuges e demais familiares, que se posicionam como parceiros, são fundamentais para a conquista deles e para o bem da sociedade.

Não posso deixar de registrar e enaltecer também a todos os profissionais de educação que dedicam tempo e doam da própria vida em benefício de cada aluno. Não desistam nunca. Precisamos de vocês.

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