4 de novembro de 2009

Quem fez isto? (parte 2)

Ainda não esgotei minha sede em falar das pessoas que fazem o mundo se mover sem que sejam vistas, lembradas e muito menos homenageadas pelas suas ações sem voz, mas de força e impacto que muito falastrão por aí jamais terá.

Conta-se a história de um renomado pastor que tinha uma igreja muito vibrante, alegre e crescente. Todos os cultos eram uma grande festa com todas as manifestações espirituais que se espera. Até que, sem motivo aparente, o brilho da igreja foi reduzindo, os fieis foram se afastando e o pastor jactancioso resolveu perguntar para Deus o que estava acontecendo. A resposta divina foi a lembrança do rosto de uma senhora muito velhinha que já havia morrido e ninguém deu por sua falta.

Na mente do pastor, agora, arrasado, foi redesenhado o corpo frágil, as rugas e os sulcos marcados daquele rosto. No diálogo, a voz divina ecoou alertando que era aquela mulher, anônima, que constantemente fazia as suas orações pedindo a Deus em favor do próprio pastor, dos diferentes setores da igreja, para que todas as pessoas que entrassem naquele lugar tivessem um encontro real com o evangelho.

Arrependido, o pastor entendeu que ele não tinha sucesso por sua grande capacidade retórica, pelo seu carisma ou pela sua estética. Mas, sim, porque um rosto anônimo amava a Deus e ao próximo com tal intensidade que, constantemente, fazia suas orações em seu favor.

Minha mente viaja e ainda tenho inúmeros personagens que não conheço os rostos, não sei seus nomes. Mas suas ações, seus esforços, a intensa dedicação de suas vidas, de alguma forma, já me alcançaram, me alcançam e vão continuar a estender sua sombra sobre a minha vida.

É comum nos lembrarmos dos médicos quando eles nos atendem mal. Fazemos questão de alardear que a consulta foi caótica, que não fomos examinados como esperávamos. Uma vez insatisfeitos, falamos para um, dois, três, quatro, dez, tantas quantas pessoas nossa língua produza saliva suficiente, para execrar o nome e a imagem do "mal doutor".

No entanto, se somos bem atendidos comentamos, quando muito, com umas duas ou três pessoas em casa ou no serviço e o assunto morre rápido. Ora, se tiramos do anonimato com tanta veemência a pessoa que, segundo nossa avaliação, é tão ruim, porque não empreendemos o mesmo esforço para promover quem nos deu a atenção que desejávamos?

Citei os médicos porque, na maioria das vezes, é pelas mãos de um deles que vimos ao mundo. No entanto, quantos de nós pode ou quis saber quem, com a capacidade dada por Deus, foi o instrumento divino que ajudou nossas mães no momento do parto?
Aqueles que se destacam na sociedade, por algum momento parecem querer passar a falsa imagem que "nasceram feitos". Contudo, ninguém conquista nada sozinho. Alguém em algum lugar falou, olhou ou tocou cada um de modo a determinar os rumos da vida do outro.

Os professores, também são exemplos de anônimos clássicos. Quantos dos seus ex-alunos estão construindo, teorizando, criando, inventando coisas, conduzindo projetos de todos os tamanhos, graças à sua habilidade e desejo de estimular o conhecimento?

Qualquer que seja a área da vida que alcancemos destaque, quer seja diante de Deus ou dos homens, os resultados serão vistos pelos contemporâneos, mas só podem ser justificados graças às contribuições voluntárias e involuntárias daqueles que cruzaram a  trajetória das nossas vidas. Somos reflexo do ontem e amanhã, seremos exatamente fruto de agora.

 
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