1 de agosto de 2013

Transferência de culpa

A prática é velha, já foi protagonizada no Éden. O Criador vai ao jardim no final da tarde como de costume. Os encontros eram alegres. Deviam ter comentários das descobertas diárias. Certamente, o casal fazia muitos elogios ao Todo-Poderoso pelo capricho no design de cada forma viva, quer fosse animal, vegetal ou mineral.

Cada animal que observavam, cada flor descoberta, o esplendor das árvores, a correnteza dos rios, o sussurrar da brisa, eram acontecimentos naturais que levavam à contemplação e deviam render muitos comentários do Adão e da Eva.
Mas, naquele fatídico dia, quando a curiosidade da mulher abriu o precedente para que fosse seduzida e comesse da única árvore que Deus avisou para que não comessem, o encontro não foi festivo. Pelo contrário. A dor da separação ainda é perceptível na forma triste como o sol se esconde atrás das montanhas. 

O livro de Gênesis retrata o Todo-Poderoso perguntando “Onde estás?”. Obviamente, um recurso retórico, pois Ele sabia exatamente em que arbusto estava o casal.
O diálogo que se segue não é nada agradável. Quando Deus questiona se tinham comido o fruto proibido, Adão culpa ao próprio Pai dizendo: “A mulher que tu me deste”. Esta, por sua vez, diz que a culpa foi da “serpente”. 

Por fim, a infame que não tinha para quem jogar a peteca, ganhou a maldição de rastejar-se (pressuponho que antes podia voar) e ainda perdeu a oportunidade de convivência pacífica com o homem. Foi destinada a ferir-lhe e ter sua cabeça esmagada.

Aos covardes Adão e Eva restaram a maldição da separação –não teriam mais os encontros com o Criador–, a inscrição no primeiro alistamento dos sem-teto –foram expulsos da primeira moradia– e, de quebra, perderam o conforto de comer com facilidade. Tiveram que passar a língua nos lábios e descobrir o sabor  salgado do suor para se sustentar. Eva ficou com a dura missão de, por ser a portadora do útero, continuar a tarefa de multiplicação da espécie, contudo, em dores multiplicadas.

A soma dos séculos é altíssima, os recursos tecnológicos desde o Éden até hoje são infinitamente maiores, do fogo ao celular, entretanto, a essência do ser humano é a mesma. Muitos argumentam que houve uma “evolução”. Que a sociedade dos homens melhorou em função das regras adotadas para convivência, pela redação e aplicação de leis, pela difusão de valores morais e éticos que foram aprimorados ao longo dos tempos etc. 

Entretanto, a essência do homem é a mesma. Há comportamentos que parecem vir gravados no DNA. E um deles é esse mau hábito de transferir culpa. Se manifesta ainda entre as crianças. Quantas vezes perguntamos aos integrantes das nossas “creches privadas” quem quebrou ou quem bateu, e os dedos e olhares se cruzam sempre dizendo: “Foi ele”?

Infelizmente, esse comportamento é ampliado para outras esferas que vão além das relações de irmãos e primos. Alcançam os vizinhos, quando dois chutam a bola, mas somente um teria quebrado a janela do vizinho.
É registrado na sala de aula quando o professor flagra a cola e, de repente, o papel indevido se auto-editou. Ninguém, outro ente que sempre leva a culpa, foi o seu autor.

O mau hábito se vê, ainda, em profusão na gestão das empresas privadas, no trabalho de órgãos públicos, nas repartições dos tribunais quando um cliente joga para seu advogado a culpa por não ser absolvido ainda que seja culpado.
Finalmente, enquanto cidadãos demonstramos a mesma atitude ao dizer que tudo é culpa dos políticos. Quando o lixo entope bueiros e boia nos rios, não foram os gestores públicos que o transportaram para lá. Se as notas dos nossos filhos estão ruins, não são, unicamente, os professores como argumenta gente de má-fé. 
Somos mais felizes quando assumimos nossas culpas, reconhecemos nossos erros e, simplesmente, colocamos em prática o que se aprendeu.

 
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