27 de outubro de 2011

Parceria

Desde que percebi-me gente, ouço alguns chavões em torno da união e parceria tais como: 'A união faz a força'; 'Sozinho ninguém faz nada', 'Uma andorinha sozinha não faz verão', 'Unidos venceremos' etc. Embora sejam simplórias, as máximas acima confirmam, cada um a seu modo, a verdade inexorável de que fomos feitos para o trabalho em conjunto.
De acordo com a narrativa bíblica, depois de ter definido como seriam continentes, mares, árvores, animais, estações, Sol, Lua, o Criador fez uma reunião solene para definir sobre o ser que dominaria sobre toda criação (Gn. 1:26).
Ora, se até mesmo o Todo-Poderoso recorre ao trabalho em conjunto, por quais cargas d'água alguns seres que ganharam Sua imagem e semelhança insistem em acreditar que podem alguma coisa sozinhos?

Seria pequenez espiritual? Fraqueza? Desejo de testar a própria capacidade? Atrofia mental ou uma burrice sem tamanho? Talvez seja um pouco ou muito de cada coisa.
A vivência em parceria é uma necessidade da vida humana. Até mesmo dentro do nosso corpo tudo acontece em parceria entre os muitos órgãos com suas diferentes funções. Seria bem provável que ficássemos esquisitos, mas poderíamos ter sido concebidos com um único braço que saísse do meio do tórax, por exemplo. No entanto, Deus pensou em dois braços, dois olhos, duas narinas, dois ouvidos, dois pulmões, dois rins etc.

Ainda que as lições do valor e importância da parceria estejam por toda parte, não é raro encontrarmos esposas que se queixam que seus maridos fazem tudo sozinhos e nunca as incluem nas decisões importantes ou vice-versa.
Também são comuns as decisões unilaterais dos pais sobre os filhos. Embora os pais estejam em situação privilegiada com relação às experiências de vida, a relação entre as gerações fica mais interessante e frutífera se os pais conquistam o coração dos filhos nestas decisões.

Bem disse Nelson Mandella: "Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração". Quem fala ao coração, conquista parceiros. E, com eles, fica muito mais fácil e prazeroso o trabalho. As conquistas se tornam mais ricas e os sonhos mais realizáveis.
Embora não seja nenhum admirador do futebol, existe um comportamento dentro das quatro linhas que me incomoda demais: a prática de quem faz o gol sair correndo sozinho, como um aloprado, para as laterais do campo.

Ora, para que a bola consiga balançar a rede todos os jogadores precisam se articular para sair do seu campo de defesa e chegar ao de ataque. Isso precisa de habilidade, criatividade, garra, boa pontaria entre outros ingredientes.
Apesar dos 11 indivíduos se empenharem para que o tal gol aconteça, na hora de comemorar, o último jogador que dá a cabeçada certeira ou o chute infalível inicia uma comemoração que vislumbro como um tanto egoísta. Saem sozinhos para um dos lados do campo fazendo aviãozinho, dando cambalhota, rolando no chão. Os outros jogadores é que correm atrás do autor do gol para pular em cima, abraçar e comemorar.

Ora, se o jogo é conjunto, a comemoração também precisa ser. Jamais mudaria uma prática centenária, mas faço uso da comparação apenas para lembrar que na vida nenhuma conquista pode ser atribuída como mérito exclusivo de uma pessoa.
Outros colaboradores podem até não estar em evidência, mas, com certeza, são responsáveis pelas nossas conquistas. Pense nisso e veja quantos parceiros você tem.

20 de outubro de 2011

Antecipação X Procrastinação

Antes de 7 de outubro de 2012 tem muita água para rolar sob a ponte

No Brasil, trabalha-se as políticas públicas de 2 em 2 anos. Pior: a sociedade tem cara de quem está viva somente nos intervalos de 730 dias. Por quê isso? Por causa deste sistema eleitoral, no mínimo, esquisito que nos faz ir às urnas a cada dois anos.
Já ouvi a desculpa de que isso ocorre porque as massas de eleitores não teriam condições de votar, de uma única vez, em sete cargos que são: vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, prefeito, governador e presidente da República.
Como o voto é uma conquista social que precisou do sangue derramado de muita gente, vá lá que voltar às sessões eleitorais a cada 730 dias não seja de todo ruim.

O que, de fato, tem me irritado profundamente é que, desde 2010, ouve-se falar das eleições de 2012! Esta antecipação tem sido cada vez mais comum. Mais irritante ainda é que a atual presidente, Dilma Rousseff, nem bem esquentou a cadeira e já tem beócio de plantão antecipando as eleições de 2014!
Pois é. Antecipa-se o que pode esperar e procrastina-se o que tem caráter de emergência. Para quem não conhece o termo, procrastinar é adiar, postergar, deixar para depois.

Via de regra, fazemos isso com muita coisa ao longo da vida. No trabalho, procrastinamos aquela faxina na gaveta. Na escola, a leitura do livro. Na família, postergamos a hora de declarar amor ou fazer um programa juntos. Com os amigos, procrastinamos a ligação para perguntar: 'Como vai?'.

Enfim, sempre deixamos para depois coisas que são fáceis de fazer, e que, apesar da simplicidade, podem repercutir de forma impensável tanto em nossa própria vida quanto para aqueles que são alvo das nossas ações.
Entretanto, somos céleres na antecipação da reclamação, da blasfêmia, da ofensa, da ira. Temos a habilidade ímpar de trazer para hoje o mal de amanhã. Bem recomendou Jesus, o Messias: "Basta a cada dia o seu mal". (Mt. 6:34)

Tal como agimos nos relacionamentos interpessoais, fazemos o mesmo com relação aos temas de interesse social.
Antecipa-se a celeuma sobre quem será o candidato a presidente da República de 2014, e procrastina-se as discussões que, se não são de aplicação imediata, são fundamentais para garantir um mínimo de perspectiva às próximas gerações. Somos imediatistas e egoístas. Colocamos muitos filhos no mundo e esquecemos de preparar um mundo para os nossos filhos.

Daqui a 254 dias vamos começar a receber uma enxurrada de promessas de toda sorte. Vai ter gente prometendo trazer até fast-food americano para a cidade. Será uma algazarra de verbos no futuro: 'farei', 'darei'... Para nos protegermos, o melhor a fazer é prestar atenção nos verbos conjugados no passado, isto é, o que realmente cada nobre cidadão já fez ou, ao menos, intentou fazer.

11 de outubro de 2011

Reflexões de um aniversário

Depois de muito garimpar no mundo virtual e sem acesso ao velho e bom suporte do livro tradicional, estou na encruzilhada típica para a atribuição da autoria de um texto. Na Babilônia que se tornou a Internet, uns atribuem o texto que pesquiso ao Fernando Pessoa e outros a Vinícius de Moraes.

Polêmicas à parte, a concatenação das palavras em apreço traduz muito do que sinto e o que, a duras penas, aprendi ao longo dos meus 12.053 dias completos no último 6 de outubro. Para quem não quer fazer as contas, são exatos 33 anos. Pois é. Já posso ser crucificado, morto e sepultado. Só não tenho garantia alguma quanto a ser ressuscitado.

Como estou ainda um pouco embotado pelas emoções, valho-me da produção intelectual de terceiros para expressar um pouco do que sinto. Assim, além do texto já apresentado acima, publico também o texto "Amigos secretos", de Paulo Sant'Ana, do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre/RS. 


Texto 1

Saudades

Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos. Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho mais tanta certeza disso.  Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida. Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nas cartas que trocaremos.

Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Até que os dias vão passar, meses... anos... até este contacto se tornar cada vez mais raro.

Vamo-nos perder no tempo... Um dia os nossos filhos vão ver as nossas fotografias e perguntarão: "Quem são aquelas pessoas?" Diremos...que eram nossos amigos e isso vai doer tanto!" Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!" A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo.


E, entre lágrimas abraçar-nos-emos. Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes desde aquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado. E perder-nos-emos no tempo... Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida te passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades... Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"


Texto 2
Amigos secretos

Paulo Sant'Ana*


Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela e divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências.

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu [oro] pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!  A gente não faz amigos, reconhece-os.


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* O texto "Amigos secretos" é atribuído, erroneamente, a Vinícius de Moraes.
Contudo, em entrevista à revista Press, Paulo Sant'Ana fala sobre o equívoco.

7 de outubro de 2011

Dedicatória aos Amigos...

Fernando Pessoa

Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos. Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho mais tanta certeza disso.  Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida. Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nas cartas que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Até que os dias vão passar, meses...anos... até este contacto se tornar cada vez mais raro.
Vamo-nos perder no tempo.... Um dia os nossos filhos vão ver as nossas fotografias e perguntarão: "Quem são aquelas pessoas?" Diremos...que eram nossos amigos e...... isso vai doer tanto!"
Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!" A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...... Quando o nosso grupo estiver incompleto... reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo.
E, entre lágrimas abraçar-nos-emos. Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes desde aquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado.
E perder-nos-emos no tempo..... Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida te passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades.... Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"

5 de outubro de 2011

Sementes do mal

O autor do livro de Provérbios, o rei Salomão, registrou um perfil que causa ou deveria causar medo até no mais corajoso dos homens: "Existem sete coisas que o Senhor Deus detesta e que não pode tolerar: 1) o olhar orgulhoso, 2) a língua mentirosa, 3) mãos que matam gente inocente, 4) a mente que faz planos perversos, 5) pés que se apressam para fazer o mal, 6) a testemunha falsa que diz mentiras, e 7) a pessoa que provoca brigas entre amigos" (Linguagem de Hoje). Na versão Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida, o item 7 foi traduzido da seguinte maneira: "o que semeia  contendas entre irmãos".
Há duas edições, falei sobre uma possível plantação de vento e colheita de tempestade. Hoje, retomo a ideia da semente e quero abordar algo que é mais fácil de identificar do que uma plantação de vento.

Considerando que Deus abomina, isto é, não pode tolerar aqueles que incitam uma pessoa contra a outra, é de ficarmos com vergonha alheia quando, sem muita dificuldade, notamos pessoas que fazem parte do nosso convívio e que, com maestria, sabem fazer funcionar uma espécie de sistema de comunicação da maldade.
 Em geral, estes 'profissionais' deste sistema do mal têm alguns jargões na ponta da língua. Vejamos: a) 'Você ficou sabendo?'; b) 'Olha, não diga para ninguém que te contei'; c) 'Pelo amor de Deus, diga que vai guardar segredo!'; d) 'Olha, gosto muito do Fulano, não quero o mal dele, mas...'; e) 'Não estou fofocando, é só pra você ficar por dentro'.

Já ouviu alguma dessas? Pois é, eu também. Apesar de ser um hábito muito feio, existe uma habilidade nestes semeadores de contenda que despertam minha atenção: a cara-de-pau. A capacidade de teatralização deles é sonho de consumo até para Antunes Filho.
Embora eu tenha um espaço de vida relativamente curto, 33 anos, não é difícil apurar pessoas que, em tempo recorde, colhem o que plantou em escala bastante generosa.
Só fico intrigado porque essa colheita é de frutos podres, mas os semeadores da maldade acham que colheram uma safra capaz de dar inveja a qualquer cultivador de soja do Centro-Oeste brasileiro.

Estão convencidos de que sabem o que estão fazendo. Vendem a imagem de altruístas e resignados, ou seja, que tudo o que dizem e fazem é pelo bem das pessoas e que abrem mão de qualquer conflito, desentendimento ou prevalecimento sobre outrem (sic!).
Entretanto, o que está em jogo são os próprios interesses. O que importa, de fato, é o quanto se pode ganhar (não necessariamente com honestidade).
No mau uso de suas atribuições nas empresas, esferas de governo, igreja, clube, associação, enfim, em todos os setores da sociedade este pulgão está presente pronto para fazer definhar qualquer árvore frutífera.

Os semeadores de contenda têm prazer mórbido em ver as pessoas se separarem. Via de regra, quem gosta de contender também busca, a qualquer preço, a bajulação. Digo sempre que o que gostam mesmo é de uma caprichosa 'lambeção' (permitam-me o neologismo).
Quando tentam separar as pessoas de seus núcleos, querem que elas se tornem seus dependentes. Entretanto, a dependência que estimulam não tem o objetivo de agregar para expandir, mas, sim, de reunir para sugar, extorquir, enfraquecer, tolher, mutilar, e, se possível, derrotar.

Retomando a capacidade teatral destes semeadores do mal eles fazem tudo o que está acima com um sorriso amarelo bem estampado em qualquer lugar que passam. Do velório à ação de graças pelo aniversário são capazes de abraçar, desejar condolências e, como um habilidoso tamanduá, dão aquele abraço capaz de estrangular sua vítima.

Se é preciso ter medo deles? Não! Basta sabermos manter uma boa distância e, como cristãos, pedirmos a Deus em favor da redenção de suas almas.

 
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