31 de dezembro de 2011

Luzes, explosões e expectativas

Avenida JJ Rodrigues vazia. Seus transeuntes estavam agrupados em pequenos grupos aguardando o momento de abraçar, beijar e sonhar de olhos abertos


A foto acima produzi na virada de 2009 para 2010. O que me marcou foi que, para registrá-la, parei exatamente no meio da rua. Nada demais, não fosse essa uma das avenidas mais agitadas de Jundiaí, a JJ Rodrigues, na Vila Arens. Por ela passam milhares de pessoas, centenas de veículos. Por alguns segundos me questionava: onde está todo mundo? Eu mesmo respondi. Neste momento único, as multidões que cruzam a via estavam todas reunidas em algum lugar para fazer a contagem regressiva.

Os grupos se reuniam e daqui a pouco voltam a se reunir em igrejas, clubes, chácaras, apartamentos, praças, lagos, praias. No meu caminho até este ponto tinha conseguido observar alguns destes grupos. Com muitos sonhos nos agrupamos para dar muitos abraços e muitos beijos e nos felicitarmos, agradecermos a Deus pelo ano findo e pelo enigmático novo ciclo que se abre. Momentos depois que fiz esta foto, seria improvável que poderia parar no mesmo local.

Os veículos já a cruzavam em alta velocidade, lotados de pessoas acenando panos, bandeiras, lenços e gritando para desconhecidos um altissonante "feliz ano novo". Cada viagem levava pessoas que saíam de suas igrejas e da casa de um familiar para o outro a fim de continuar a sessão de abraços.

Oxalá aprendamos a manter esta vibração em todo o tempo. Sabendo chorar e sorrir com as pessoas, quer elas estejam no nosso círculo mais íntimo ou não. Que as muitas luzes dos fogos, os sons de explosão produzidos por cada bateria sejam símbolos da nossa explosão pessoal de alegria pela vida.

Que a fé, a esperança e o amor sejam os principais elementos que pavimentem nossa estrada, calcem nossos pés, enfeitem o nosso horizonte, cerquem-nos como manto e que em tudo consigamos ter uma expressão de gratidão a Deus e uma expressão de louvor por tudo o que Ele faz.

Que a adoração seja, de fato, um estilo de vida de modo a que Ele, o Soberano, receba o que Lhe é devido independente do quanto recebemos e do que vivemos. Que em todos os momentos sejamos capazes de reconhecer a Sua presença, os seus ternos cuidados e o Sua amor que é absolutamente inexplicável, mas plenamente acessível.

Feliz 2012 a todos!

Votos capitalistas e práticos

O status do Facebook sempre pergunta o que estou pensando. Resolvi responder: estou pensando que, em 2012, 13, 14...99, desejo muito dinheiro para mim, meus descendentes e meus amigos.
Quem pretender me felicitar, pode economizar saliva e desejar só grana, cacau, faz-me-rir, money, cascalho, Real, Dólar, Euro, Libras, Iêns, porque todo o restante já tenho em fartura: alegria, amor, harmonia, força, esperança, fé, saúde etc etc.

Acredito, piamente, que no ato da concepção, quando ainda éramos rascunho na prancheta do Criador, além de uma centelha de Si que depositou ao nos dar o fôlego da vida, em algum compartimento da alma, Ele depositou também todas as riquezas espirituais.
Nós é que, por absoluta burrice, vamos jogando ao longo da jornada da vida. Mas sempre fica um bocadinho no fundo do tacho que pode ser multiplicado tal qual o azeite da viúva, no milagre operado por meio de Eliseu, o profeta.
Ainda que eu não ame o dinheiro (o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males) preciso, e muito, dele. Todos os valores e riquezas espirituais que tenho independem da conta bancária. Já os tenho mesmo fechando no vermelho, roxo, pink ou qualquer cor equivalente.

Saúde é bom desejar, mas se o Todo-Poderoso, por qualquer objetivo (correção, ensino, aperfeiçoamento) resolver tirá-la de mim, não adianta ter ou não ter o dinheiro. Basta lembrar que um sem número de gente endinheirada morre no quarto de luxo garantido pelo convênio. Outros tantos são salvos de doenças incuráveis, ainda que padecendo no barraco de pau-a-pique, com o remédio mais eficiente e de custo zero que é a fé.

Por essas e outras razões, reitero meus votos de muito dinheiro para todos. Afinal, convivo com um sem número de gente honesta, trabalhadora, raladora que merece ter dinheiro no bolso muito mais que o tal Jader Barbalho que, por 4 dias de trabalho "honestíssimo!" em Brasília (dias 28, 29, 30 e 31 de dezembro) recebeu a bagatela de R$ 3.500,00, mais a ajuda de custo de R$ 26.700,00. Se ele pode ter muito dinheiro no bolso, muito mais eu, meus amigos, colegas e, porque não, até quem me tem por inimigo.

Por isso, em 2012, muito dinheiro para todos, especialmente aos honestos de verdade e não aos de fachada.

22 de dezembro de 2011

2011 está chegando ao fim. Mas o que fica?

Por: Amanda Souza; Emanuel Moura; Glaucia Bernardo; Willian Sanches

Torci muito pra este ano acabar logo. E agora ele está aí, quase chegando ao fim. Em 2011, amigos se afastaram, outros desistiram de mim, alguns novos apareceram e outros se fortaleceram. Percebi que pra algumas pessoas sou apenas 'útil', para outras sou extremamente importante. Senti falta de ligações que seriam especiais no meu aniversário, mas me senti especial por pessoas que sequer sabiam muito sobre mim.

Houve boas novas, mas também existiram as más… Fizeram-me sentir muito mal… mas soube dar a volta por cima e me fazer bem…
Senti-me esquecida e, ao mesmo tempo, muito querida!

Eu aprendi muito… aprendi sobre mim, sobre as pessoas, sobre amizades, sobre família, sobre a vida. Aprendi que sou humana, com acertos e muitos erros… muitos erros mesmo, na tentativa de, numa próxima, acertar.

Quero carregar este ano como um aprendizado, para que ele não se repita. Quero que seja apenas para eu lembrar "como vivi" e como "preciso viver".

Pensar muito mais em mim e esquecer que eu vivi para os outros. Hoje eu  aprendi a dançar conforme a música. De 2011 só levo amor, o amor que recebi e retribui. Levo a certeza de que planos e expectativas nos causam dores, mágoas e algumas vezes são inúteis.

Muitas vezes acreditei nas pessoas e me decepcionei, mas na verdade sabia que se acreditasse em mim isso não iria acontecer. Errando, levei 2011. Amando, levei 2011. Acreditando, com certeza, levei 2011. O sentimento que me vem é de um fim de viagem…

Vejo pessoas que amo me acenando, chorando de alegria pela minha volta. Mas, como todo fim de viagem, deixei algumas pessoas que amo. Isso mesmo, amo. Porque quem ama nunca deixa de amar, para trás, reencontro nesse "porto" a esperança de que este ano que chega será bem melhor do que o que se vai.

Já não lembro com dor as lágrimas que deixei cair, e ainda esboço sorrisos ao me lembrar todos os bons momentos que vivi. Lembro das risadas que dei e que vi, dos gostos que senti, do cheiro de perfume de alguns amigos chegando.

2011? Um ano de mesmice, chatice e valores. É… parece que foi ruim, um pouco talvez. Digo mesmice, pois não pude ter grandes realizações como havia planejado. A chatice fica por conta das pessoas, que em muitos momentos ruins não pude rever e talvez chorar, mas foram, foi, não sei. Mas tomara Deus que continuem sendo, apenas sendo. Agora os valores, esse não quero descrever, são muitos, são poucos, não sei dosar. São emoções, relacionamentos,  amizade, tudo e mais um pouco. E que fez da minha vida no meu ano diferente. E que venha 2012 com tudo e mais um pouco.

Este momento de transição de um ano para o outro, bem poderia ser só mais uma troca de calendários. Gostaria de poder ser menos impactado por tudo isso. O frenesi, a pressa, a correria, o consumo, tudo isso me contamina. Queria ficar menos melancólico. Não gostaria de estar tão embriagado de esperança ou expectativas. Gostaria, de verdade, de ser menos sensível.

Gostaria de poder dizer para minha alma: "Alma, é só mais um ciclo. Fica quieta. Logo você desembarca." Mas, não consigo. Acho que não consigo justamente por isso, não é só mais um ciclo. O ano que se foi não será mais vivido, mas algumas coisas aconteceram em seu transcurso que é impossível à mente humana eliminá-lo.

Daqui mais algum tempo, vamos perguntar: "em que ano foi mesmo?". 2011 já não será tão fresco. Para narrar um fato, vamos recorrer a fatos como o casamento de alguém, ou ao nascimento e, por traição da própria memória recordaremos de algumas almas que embarcaram para não mais voltar.

O ano vai virar a curva do tempo e ficará para sempre no memorial da alma. Em seu lugar, surgirá com dia certo para partir o desconhecido, incerto, misterioso, enigmático 2012. Como todos os outros anos, ele chega com milhões de bagagens e em cada mala zilhões de vivências.

2011 se vai, mas deixa sua marca na minha alma, deixa seu conteúdo na minha mente e, graças a ele, posso dizer que meu espírito cresceu, se fortaleceu, se aperfeiçoou. De 2011, levo uma lapidação maior. Perdi algumas arestas que provocavam feridas em mim e em outos. Ganhei contornos e silhuetas que se não me deixam mais belo, ao menos me tornaram menos nocivo.

A Deus meu muito obrigado por ter me permitido a adição de mais estes dias de 2011. Como suplicou Moisés, o grande Legislador, resta-me repetir a oração: "Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria". (Salmos 90:12)

21 de dezembro de 2011

Comemoração e gratidão

Via de regra, falo pouquíssimo sobre minha vida pessoal nestas postagens. Evidentemente, qualquer blogueiro sempre escreve algo que ajuda ou ajudou a forjar seu caráter. Às vezes são revelações explícitas, outras têm que ser interpretadas, montadas, costuradas ao sabor de cada leitor.
Ao pensar no último texto do ano, às vésperas do Natal, tenho o privilégio de cumprir com esta maravilhosa obrigação de escrever mais um texto. Apesar do pouco que digo sobre mim de modo escancarado, tenho a sensação que muitos leitores se tornaram parte da minha história e, ainda que não saibam, contribuem no meu crescimento e formação.

O ano de 2011 chega ao seu crepúsculo como um momento de transição, ou até mesmo de transformação pessoal. Dentre todas as outras realizações, ele será o ano que vai me marcar, até o dia da minha última viagem, por ter sido durante sua passagem que concluí, a duras penas, a minha primeira graduação.
Pois é. Mesmo sem o diploma na mão –um ato protocolar daqui para frente–, já posso dizer que sou um jornalista. Não que seja algo que dê a mim ou mesmo a qualquer outro colega a expectativa de poder remar em lago manso e piscoso. Pelo contrário, concluímos o curso cientes de um mar revolto, com ondas que fariam qualquer Titanic virar um barquinho a remo.

A despeito de todas as reflexões, dificuldades, alegrias, decepções e êxitos na realização do curso e no desempenho das atribuições profissionais, o que realmente importa, ao menos para mim, é o que vivi com as pessoas. Desde colegas da mesma turma (Jornalismo e Publicidade & Propaganda), da mesma área (Comunicação Social) ou tantas outras. O que realmente vale a pena é a convivência.

Destaco também os professores que são parte inesquecível deste campo de batalha que é a academia. Ah, os professores! Eles são hilários, irritantes, aterrorizantes e ao mesmo tempo amigos, parceiros, animadores, consoladores, fortalecedores. É claro que a convivência com tanta gente não foi sempre uma navegação em "Lago Azul", tampouco um vôo em céu de brigadeiro. Ainda assim, cada momento valeu à pena.

No último dia 17, quando estive reunido com alguns dos meus colegas jornalistas e publicitários, pude dizer o quanto agradeço por terem contribuído no pouco, pouquíssimo, que melhorei como gente. Sou assumidamente barraqueiro, teimoso, turrão, por vezes, ranzinza. Pouco ou nada estive com os colegas em volta da mesa do bar, por ser absolutamente "caxias".
Ainda que nunca fosse beber qualquer coisa alcoólica, podia beber um suquinho ou refrigerante. Fiz pouco. Reconheço que poderia ter feito mais. Contudo, os momentos que estive junto foram marcantes e enriquecedores.

Felizmente, Deus nos dá as pessoas de presente ao longo da trajetória terrena. Como registrou o sábio rei Salomão na sua compilação de provérbios: "Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro." (Pv. 27:17). Isso é uma verdade prática. Sou beneficiário desta habilidade que o Criador nos concedeu de "afiarmos" uns aos outros.
Preciso deixar registrado para a posteridade e semear palavras de gratidão a cada colega, a cada professor, a cada amigo que direta ou indiretamente participou de mais uma etapa da minha vida. Embora os defeitos não tenham me largado (nem eu a eles), disse aos colegas no último encontro e reitero aqui: "Continuo bem ruinzinho, mas se melhorei um pouco, agradeço a vocês. E agradeço a Deus por ter me dado vocês de presente."

15 de dezembro de 2011

Recomeço

Nos últimos dias, mantive contato com pessoas que considero heróis. Na conversa que tive com eles, não fui informado de que em qualquer momento  da vida tenham mergulhado no mar bravio para salvar alguém ou que tenham se jogado na frente de uma carreta para impedir um atropelamento.
Enfim, eles não preenchem os perfis megalomaníacos ou trágicos que são buscados pela maioria dos veículos de informação pautado pelo sensacionalismo.

Conversei com Anderson Luiz Pires, de 32 anos, residente em Várzea Paulista, João Barbosa da Silva, de 42, e Carlos Alberto Gonçalves Guerra, de 47, esses dois residentes em Campo Limpo. O que eles têm em comum é a garra de retomar as rédeas da própria vida através da educação.
Eles pararam de estudar na infância ou adolescência por diversos motivos. Desde distância da escola até por achar que estudar seria dispensável. Os motivos de interrupção da vida acadêmica, agora, pouco importam. O que, de fato, entusiasmou-me, profundamente, foi a disposição deles por recomeçar.

Tiveram que vencer, primeiro, a si mesmos, uma vez que a idade parece ser impeditivo para a volta à escola. A vergonha, o medo de enfrentar o novo, o receio para sair da zona de conforto são inimigos relevantes. Após dar o primeiro passo, irem até uma unidade escolar (nestes casos Emef Nair Ronchi Marchetti e Emef Vila Thomazina), tinham que vencer o leão e urso do cansaço e desânimo todos os dias.
Depois de jornadas exaustivas de trabalho como zelador de uma chácara, no caso do João Barbosa, e como entregador externo de uma rede varejista, no caso do Anderson Pires, o corpo cambaleava e pedia tudo, menos, sair de casa, pegar ônibus e ficar mais três horas estudando.
Para Carlos Guerra a  rotina não era de trabalho, uma vez que se tornou beneficiário da Previdência Social. No entanto, precisa vencer as consequências de um acidente de trabalho, em 2010, e de uma cirurgia para a retirada de tumor com 13cm na região da clavícula, em 2007.

A despeito de todas as dificuldades e limitações, esses heróis escolheram o caminho mais penoso, porém mais justo e igualitário da promoção pessoal: o estudo. Como bem disse Carlos, "sem estudo, o ser humano não tem qualificação".
Muito mais que melhorar o currículo para o mercado de trabalho, as mudanças na mentalidade, a nova visão de mundo, a disposição para a busca pelo conhecimento são conquistas ainda mais importantes.

Anderson encara o momento como "uma nova página". Agora, ele se sente redator  da própria história e sente-se renovado por dentro. "É uma nova vida. Estou me sentindo uma criança". Todas essas conquistas foram na formatura do Programa para Educação de Jovens e Adultos (EJA) - turma 2011.

Quiçá, outras centenas, milhares de brasileiros consigam fazer como esses nossos heróis. Provavelmente, eles nunca vão se tornar pauta para o Jornal Nacional, mas isso não importa. Eles são agentes transformadores da nossa sociedade.
Concluo esta coluna parabenizando e agradecendo às famílias desses e de outros formandos. Sem dúvida, os filhos, cônjuges e demais familiares, que se posicionam como parceiros, são fundamentais para a conquista deles e para o bem da sociedade.

Não posso deixar de registrar e enaltecer também a todos os profissionais de educação que dedicam tempo e doam da própria vida em benefício de cada aluno. Não desistam nunca. Precisamos de vocês.

10 de dezembro de 2011

Amor explícito

O amor é um tema que está nos lábios, nos olhos, na mente, nos gestos, nas expressões de todo mundo. Se entendemos ou não o que é esse amor em suas múltiplas manifestações de pais e filhos, marido e mulher, namorados, amigos etc é assunto que dificilmente chegaremos a uma conclusão definitiva.
Por mais que já se tenha discutido sobre este assunto, tentado dar definições para o que é o amor, sempre teremos algo a aprender. Mas, desconsiderando as teorias sobre o amor, o que provoca nas pessoas, suas consequências sociais e outras questões, quero refletir sob a ótica de que o amor vem saturado de ação.
 
Por mais que se tente criar teorias para o amor, seu conhecimento só pode ser ampliado pela prática. Se observarmos as nossas relações, veremos que sempre precisamos fazer escolhas em favor de quem argumentamos amar. As decisões, com certeza, causaram algum impacto em nossas vidas quer seja de grandes ou pequenas proporções.
A pessoa que escolhemos para casar, por exemplo, nos faz abrir mão de hábitos e preferências. Procuramos sempre nos ajustar de tal forma a que as partes interessadas na relação não se aniquilem, mas alcancem uma complementação.

Quando amamos, passamos por sucessivos momentos de renúncia para alimentar o amor. Isso é amor em ação. O amor está sempre voluntarioso na prestação do serviço.
Não importa o momento, o dia, a hora, o lugar. Se amamos, as mãos estão sempre estendidas, os pés sempre ágeis para correr em socorro.
Jesus, o Mestre do Amor, sempre discursou sobre o assunto mostrando a voluntariedade da ação de quem ama. Isso é o que percebemos na célebre parábola do bom samaritano que socorre um cidadão desconhecido agredido por ladrões, paga e acompanha sua recuperação (Lc. 10:30-37).

Um dos textos bíblicos mais populares afirma que Deus deu seu Filho Unigênito para provar que ama o homem. (Jo. 3:16) Sendo assim, é de bom tom avaliarmos o quanto o nosso amor tem sido exercitado.
Quanto as pessoas que nos cercam sabem que as amamos? É comum optarmos para que as pessoas saibam disso pela dedução. Via de regra, somos explícitos nas coisas ruins. Nas expressões de insatisfação, nas palavras de ofensa muitas vezes.
Quando irados, falamos em alto e bom som para quem interessa e para quem não interessa também. Com as expressões de amor, temos a mesma postura de consumidores. Quando satisfeitos, falamos para mais um amigo (quando o fazemos).

Se o produto ou serviço dá algum problema, reclamamos, telefonamos, publicamos no Twitter, Facebook, falamos mal no almoço de aniversário, no jantar de Natal, na viagem de fim de ano. Quando não gostamos de algo, até aceitamos ir no aniversário da sogra para poder compartilhar a insatisfação.
Acredito que poderíamos mudar a postura. Não será brusca, mas pode ser gradual. Ou seja, podemos nos exercitar em exaltar mais as virtudes uns dos outros. Elogiar mais os acertos, minimizar os erros.
Já que estamos em época de Natal, felicitações de boas festas, cumprimentos, viagens, proponho que não deixemos as expressões de amor para a dedução.
 
Sejamos explícitos. Aniquilemos o medo de dizer que amamos. Abraços, beijos, compartilhamento de sonhos. Tenhamos disposição para chorar juntos, para rir. Encorajemo-nos a levar as cargas uns dos outros, a perdoar uns aos outros e, dessa forma, usufruirmos mais de todas as dádivas decorrentes da prática do amor.

1 de dezembro de 2011

Natal é prova de amor

Encarnação de Cristo foi evidência de amor divino

Foto: Manoel Pimentel Medeiros [clique aqui para visitar galeria]

O anúncio de nascimento com maior antecedência na história da humanidade foi o de Jesus, Filho de Deus. Isaías, conhecido como profeta messiânico pelo volume de profecias específicas sobre seu caráter e missão, anunciou o momento que o Verbo se tornaria carne com mais de 700 anos de antecedência.
"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu: o principado está sobre os seus ombros e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz." (Is. 9:6)
O apóstolo Paulo em sua carta direcionada aos cristãos na cidade de Roma escreveu algo interessante: "Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (Rom. 5:8).
Entre tantas outras colocações do apóstolo, esta chama a atenção de forma especial, pois ele usa a expressão "prova o seu amor". Pensando friamente, podemos questionar: Deus, Criador de todas as coisas, teria necessidade de provar alguma coisa? Evidente que não!
Ele não deixaria de ser o Todo-Poderoso caso desistisse de enviar o Messias para morrer no lugar do homem levando seus pecados. Entretanto, vem dEle o exemplo máximo a nós –feitos à sua imagem e semelhança– para aprendermos que, se dizemos amar, não podemos fazê-lo apenas por palavras. 
João, conhecido como apóstolo do amor, muitos anos depois da carta aos romanos, escreveu: "Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obras e em verdade". (I Jo. 3:18)
O Natal é um momento do ano que deve nos conduzir a uma reflexão na prova máxima do amor de Deus de ter enviado a Jesus como ápice do plano de redenção. Não é sem propósito que o texto áureo das Escrituras revela: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo. 3:16)
Graças à expiação de Cristo não precisamos nos flagelar ou morrer no lugar de ninguém, pois ele fez isso por nós. Contudo, podemos sempre agir em favor de quem dizemos amar. Essa ação vai desde não se negar a prestar socorro em um momento de necessidade, até usar a fé que dizemos ter e orar em favor de quem dizemos amar.
Todo o processo da encarnação de Jesus, nascimento num estábulo, sua vida como homem do povo, sua vivência na cidade remota de Nazaré, sua profissão de carpinteiro e a realização de um ministério em que dizia abertamente ter vindo em favor dos excluídos dão ênfase no amor praticado e semeado em larga escala.
Isso credenciou o Messias a ordenar expressamente: "O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.". (Jo. 15:12).

24 de novembro de 2011

Transferência de responsabilidade

Esta semana, fui pego de assalto por um misto de revolta e indignação em função do circo armado pela imprensa nacional e local em torno do assunto da venda de bebida alcoólica a menores.
Os argumentos para as operações cinematográficas de fiscalização aos bares, restaurantes e até baile de 15 anos, para verificar o consumo de álcool por menores de 18 anos são, no mínimo, fracos!

De repente, uma onda de proteção a pessoas tão indefesas, desprotegidas, sem amparo. Ó, pobres coitados destes adolescentes! Sim, estou sendo irônico, se todos os predicados ainda não deixaram claro.
Quando digo que os argumentos para as medidas de fiscalização são fracos, faço-o não para desmerecer a legislação, mas para ressaltar que não bastam as leis.
Meu posicionamento arredio não é, no primeiro momento, com as questões da Lei. Se a legislação existe, deve ter lá seu mérito. Contudo, o fato de alguém ter lavrado, leis, decretos, resoluções, códigos civil e penal ou qualquer coisa que o valha, não tira a responsabilidade da família.

Os donos dos estabelecimentos que comercializam bebidas alcoólicas, reconheço, devem exercer a cidadania que se presume. Fico apenas tentando imaginar quantos fiscais seriam necessários para autuar, em caso de irregularidade, o que a lei prevê. Vejamos: bares, restaurantes, padarias, postos de gasolina, casas de espetáculos, lojas de conveniências, feiras, bufês, clubes e até eventos fechados.
Considerando que o país tem mais de 5 mil municípios fica fácil a fiscalização por agentes públicos! Todas as prefeituras devem converter professores, faxineiros, motoristas, secretários, diretores, coordenadores em fiscais integrais que cumpram carga horária de segunda a segunda, preferencialmente, das 21 horas às 5 horas da manhã.

Ora, façam-me o favor! Nem as Forças Armadas agindo em conjunto com polícias Civil, Militar e Guardas Municipais dariam conta de controlar um exército milhares de vezes maior, formado por adolescentes mal educados, rebeldes, com famílias desestruturadas.
Não é possível conter que adolescentes consumam cerveja, cachaça, whisky, vodka, tequila e batidas de toda sorte se eles são estimulados e até treinados pelos próprios pais. Contra a irresponsabilidade da família não há leis. Se o filho se embriaga a primeira vez, aos 12, 13, 14 anos e encontra a conveniência dos pais o que as autoridades vão fazer?

Transferir responsabilidade é fácil. Pais dizerem que não controlam mais os filhos, é, no mínimo, um absurdo! Há um adágio popular que soa vulgar, mas recorro a ele agora: "Pariu seus Mateus, que se balance!".
Ninguém venha com essa de dizer que não consegue mais manter a rédea de suas crias. Não poder é uma coisa, não querer é outra. Assumam a culpa pela irresponsabilidade e procurem, por todos os meios, compensar o dano causado à sociedade pela má educação de seus filhos. Uma campanha no Facebook alerta: "Faça um favor para a humanidade: quando for preciso, diga não para os seus filhos. A sociedade agradece."

É ainda digno de virar anedota todo este picadeiro sobre a questão do menor estar consumindo bebida alcóolica, se considerarmos outras aberrações sustentadas pela lei. Este mesmo menor que deve ser "protegido da bebida", pode solicitar título de eleitor e, pasmem, decidir sobre quem governa! E, se ao dirigir provocar um acidente com vítimas, vejam só, ele não pode ser preso! Não sei se devo rir ou chorar.

18 de novembro de 2011

Trabalho de muitas mãos

Dependemos de mãos alheias, do nascimento à morte

A imagem que ilustra este post, reconheço, é clichê, mas os conceitos que ela pode representar nunca caem de moda.
Quando a nossa sanidade está sob risco, tentamos nos convencer que somos auto-suficientes, independentes e pretensamente superiores. Após o juízo ser restabelecido, normalmente pelos tombos ao longo da vida, percebemos o quanto precisamos uns dos outros.

Essa é uma condição que nos acompanha desde o nascimento. Neste momento é certo que nos esforçamos para sair da primeira casa, o útero, mas se a mãe não fizesse aquele esforço hercúleo, a parceria do nascimento não se estabeleceria.
Além de mãe e filho há sempre alguém para ajudar. Nos tempos antigos existiam as parteiras. A modernidade ajudou a aumentar o número de mãos trabalhando na concepção. Enfermeiros, médicos, até pais menos covardes, e com um pouquinho mais de dinheiro, podem não ajudar, mas acompanhar o milagre da vida. A 'grande' ajuda deles é ficar dizendo no ouvido da esposa: 'amor, você consegue'. Enquanto ele se contorce mais que ela.

A dependência de mãos alheias continua depois do primeiro choro. Alguém pega nos braços, limpa, coloca no peito da mãe para o primeiro contato, leva para o banho e devolve à mãe ainda descabelada. Sem as mãos dos milhões de profissionais da saúde que se dedicam nisso, as mães ficariam loucas sem saber onde estaria seus rebentos e os recém-nascidos sem perspectivas.

Só para encurtar caminho, dependemos das mãos alheias até depois de mortos. Sem elas nossa casa terrena, o corpo, ficaria exposto sem o mínimo de respeito. São pelas mãos dos outros que os corpos são guardados para voltar ao pó como era. Mórbido de minha parte? Acredito que não. Afinal, esta é uma das poucas certezas da vida: a partida.

Mas entre o ano de nascimento e o de morte cravados na lápide ou registrado quando citam alguém já falecido existe um traço. Tomo este traço, agora, como símbolo da soma de dias vividos. Em seu transcurso, tudo é feito com a soma do esforço de muitas mãos.

Da casa que moramos à alimentação diária seja ela em casa, na cozinha da empresa ou nos restaurantes, em tudo há trabalho feito por mãos de terceiros.
Se temos uma cidade limpa para transitar, alguma mão se empenhou nisso. Se há ruas e avenidas projetadas, grandes e pequenas construções, escolas, hospitais, museus, teatros, cinema, lojas, enfim, em tudo atuaram mãos que desconhecemos. Desde a mão do arquiteto, que pôs o sonho da cabeça de alguém na prancheta, até o pedreiro que deu forma à construção.

Independente de nossas mãos serem reconhecidas ou não, é de bom tom, pelo menos reconhecermos as mãos alheias. A colheita pode demorar, mas é certa.

10 de novembro de 2011

Erros e acertos

Caso o projeto original da criação do homem pudesse ser desenhado ou escrito para ser lido ou interpretado na linguagem humana, muito provavelmente ele seria algo que, de tão belo, seria considerado raro, precioso, digno de integrar o acervo do maior e melhor museu ou biblioteca do mundo.
Ainda que pessoas como o escritor português José Saramago (1922 - 2010) tenha dito que "a humanidade não merece a vida" e que a "história da humanidade é um desastre" tenho absoluta tranquilidade em dizer que ele estava errado.

Mesmo que ao longo dos séculos tenhamos cometido muitos erros, não acredito que devamos ser medidos por eles, e, sim, pelos nossos acertos. É bem verdade que a exploração desordenada dos recursos naturais, a poluição da 'casa' que o Criador nos deu para morar e cuidar, as intervenções desastrosas no leito de rios, são erros que, se não vem com a fatura para a geração que os cometeu, sem dúvida as gerações sequentes, um dia, colhem os resultados das infelizes escolhas dos seus antecessores.
Como raça humana erramos, e muito, quando optamos pelas armas ao invés do diálogo. Nos mantemos num padrão de desvio do projeto original do Criador quando nos determinamos a arquitetar e executar o mal.
Ainda que nossas falhas pessoais sejam abundantes o que decorre em erros coletivos, felizmente, para cada erro existe um acerto. Antes que uma ação errada seja executada, primeiro, ela foi formulada na mente, devidamente fortalecida e, finalmente, praticada.
Se para o errado há um fluxograma de concretização, os acertos seguem a mesma lógica, porém com um agravante: nem sempre acertar é uma ação tomada sem dor ou, no mínimo, renúncia.
O erro, por sua vez, ao menos durante sua execução, dá uma sensação de prazer, por vezes mórbido.
Nunca experimentei nenhum tipo de drogas, mas mesmo sabendo-se de toda ilegalidade, o uso delas para o dependente químico é um erro que dá prazer e, como os efeitos passam rápido, o erro se repete muitas vezes durante um único dia.
Também é errado alimentarmos e satisfazermos os sentimentos de vingança. Contudo, via de regra, cedemos a esta mesquinharia e nos enganamos quando, ao executarmos a vingança, seja ela em que escala for, achamos que estamos prejudicando ao alvo, quando, na verdade, fazemos mal muito maior a nós mesmos.
Para não focar apenas nos nossos muitos erros, quero concluir falando de acertos. Eles, ao contrário dos erros. Acertar implica em renúncia, revisão de pontos de vistas, mudança de rota, esvaziamento, calar na hora que se quer berrar, dar um abraço quando se quer dar um murro, andar mais uma milha quando não se tem mais força para dar sequer mais um passo.
Um dos acertos mais dolorosos é o perdão. Na jornada da vida temos sempre muitos e intensos conflitos. Não bastassem os internos, temos ainda as guerras públicas. Algumas a gente até lembra quando, onde e porque começou. Outras são justificadas por razões que, analisando friamente, faria corar de vergonha até um gélido cadáver.
Quando discordo de Saramago de que o homem não merece a vida, faço-o com base em alguns exemplos que povoam minha mente. Poucos? Diria que não são na quantidade que eu gostaria, mas consolo-me com o fato de que eles existem. Refiro-me a pessoas que tiveram a dignidade de rever posições, baixar a guarda, livrar-se das armas e permitir-se ao crescimento ímpar decorrente do perdão.

3 de novembro de 2011

Parceria 2

No post anterior, falei sobre parceria e conclui propondo uma revisão na lista de parceiros. Quantos e quem são eles em nossa trajetória de vida?
Ao fazer a propositura, evidentemente já tinha realizado o check-list com aqueles que estabeleceram alguma parceria comigo. Ao olhar para ontem e dar um pouco mais de atenção ao hoje, o mínimo que se desperta é um sentimento de gratidão.

Cada pessoa que integra essa galeria de parceiros deu a sua contribuição para que eu seja o que sou neste momento. Se tenho o que melhorar? E como! Mas não tenho dúvidas que seria muito pior não fosse a vivência com cada um.
Nessa galeria, que não é da fama, mas é a da minha vida –e isso é o que importa–, tem pessoas que conviveram por muito tempo e tem aqueles que fizeram apenas uma breve passagem e, nas atuais circunstâncias pouco consigo ver ou falar. Contudo, a distância e o silêncio não apagam suas contribuições. Tem também aqueles com quem não posso mais telefonar, escrever, tocar. Posso, no máximo, recordar de cada momento vivido das lágrimas ao riso.

Quando olho para meus quadros de parceiros, vejo crianças, jovens, homens e mulheres. Tem gente de toda sorte, com todos os níveis de formação, com as mais diversas preferências, gostos, vivências, origens.

Olhar para os parceiros e ter um olhar crítico sobre suas personalidades permite descobrirmos o quanto são diferentes de nós. Exatamente nestas diferenças está a beleza e riqueza da vida e das relações humanas.
Tenho um conceito romântico da vida. Acredito que o Criador nos concebeu com tantas particularidades para que pudéssemos encontrar a complementação.

Infelizmente, fazemos mal uso de tudo isso e optamos pelos conflitos, nos adaptamos a uma concorrência desleal e, com isso, perdemos, deixamos de contemplar, não angariamos riquezas que transcendem a matéria. Enfim, não vivemos o projeto divino de, pela comunhão, descobrirmos, aprendermos, crescermos.
Apesar de todos os nossos defeitos e mazelas, olho para os muitos parceiros na vida e não consigo deixar de me empolgar. Muitos deles, na verdade, nem sabem o valor que lhes devoto, mas são meus parceiros.

Na minha galeria constam homens e mulheres que, cada um à sua medida, enriquecem-me com o romantismo, criatividade, garra, sensibilidade, objetividade, força física e espiritual entre outras contribuições voluntárias ou não.
Por serem parceiros, isso não significa que estamos isentos das discordâncias. Aliás, parceiros de verdade não são aqueles que endossam tudo e qualquer coisa que falemos ou façamos. Os melhores parceiros são aqueles que discordam, que apontam o lado contrário.

A parceria não é sinônimo de cumplicidade para o erro. Também não pode ser considerado parceiro quem percebe que estamos dando passos para a ruína, mas não tem coragem de, se necessário, dar um 'tapa na cara' para que possamos despertar.
Não tenho vergonha nenhuma, pelo contrário, sinto até um certo orgulho e ligeira vaidade por reconhecer no meu casting de parceiros pessoas muito melhores que eu em tudo!
 
Mesmo estando à minha frente, permitem-me ouvir, aprender e, ainda que muito lentamente, melhorar. Pelo que as palavras conseguem expressar e por tudo o mais que é lícita apenas à comunicação entre as almas, deixo aqui meu tributo aos parceiros de perto e de longe, de contato frequente ou esporádico, o meu singelo, mas nem por isso menos profundo, muito obrigado.

27 de outubro de 2011

Parceria

Desde que percebi-me gente, ouço alguns chavões em torno da união e parceria tais como: 'A união faz a força'; 'Sozinho ninguém faz nada', 'Uma andorinha sozinha não faz verão', 'Unidos venceremos' etc. Embora sejam simplórias, as máximas acima confirmam, cada um a seu modo, a verdade inexorável de que fomos feitos para o trabalho em conjunto.
De acordo com a narrativa bíblica, depois de ter definido como seriam continentes, mares, árvores, animais, estações, Sol, Lua, o Criador fez uma reunião solene para definir sobre o ser que dominaria sobre toda criação (Gn. 1:26).
Ora, se até mesmo o Todo-Poderoso recorre ao trabalho em conjunto, por quais cargas d'água alguns seres que ganharam Sua imagem e semelhança insistem em acreditar que podem alguma coisa sozinhos?

Seria pequenez espiritual? Fraqueza? Desejo de testar a própria capacidade? Atrofia mental ou uma burrice sem tamanho? Talvez seja um pouco ou muito de cada coisa.
A vivência em parceria é uma necessidade da vida humana. Até mesmo dentro do nosso corpo tudo acontece em parceria entre os muitos órgãos com suas diferentes funções. Seria bem provável que ficássemos esquisitos, mas poderíamos ter sido concebidos com um único braço que saísse do meio do tórax, por exemplo. No entanto, Deus pensou em dois braços, dois olhos, duas narinas, dois ouvidos, dois pulmões, dois rins etc.

Ainda que as lições do valor e importância da parceria estejam por toda parte, não é raro encontrarmos esposas que se queixam que seus maridos fazem tudo sozinhos e nunca as incluem nas decisões importantes ou vice-versa.
Também são comuns as decisões unilaterais dos pais sobre os filhos. Embora os pais estejam em situação privilegiada com relação às experiências de vida, a relação entre as gerações fica mais interessante e frutífera se os pais conquistam o coração dos filhos nestas decisões.

Bem disse Nelson Mandella: "Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração". Quem fala ao coração, conquista parceiros. E, com eles, fica muito mais fácil e prazeroso o trabalho. As conquistas se tornam mais ricas e os sonhos mais realizáveis.
Embora não seja nenhum admirador do futebol, existe um comportamento dentro das quatro linhas que me incomoda demais: a prática de quem faz o gol sair correndo sozinho, como um aloprado, para as laterais do campo.

Ora, para que a bola consiga balançar a rede todos os jogadores precisam se articular para sair do seu campo de defesa e chegar ao de ataque. Isso precisa de habilidade, criatividade, garra, boa pontaria entre outros ingredientes.
Apesar dos 11 indivíduos se empenharem para que o tal gol aconteça, na hora de comemorar, o último jogador que dá a cabeçada certeira ou o chute infalível inicia uma comemoração que vislumbro como um tanto egoísta. Saem sozinhos para um dos lados do campo fazendo aviãozinho, dando cambalhota, rolando no chão. Os outros jogadores é que correm atrás do autor do gol para pular em cima, abraçar e comemorar.

Ora, se o jogo é conjunto, a comemoração também precisa ser. Jamais mudaria uma prática centenária, mas faço uso da comparação apenas para lembrar que na vida nenhuma conquista pode ser atribuída como mérito exclusivo de uma pessoa.
Outros colaboradores podem até não estar em evidência, mas, com certeza, são responsáveis pelas nossas conquistas. Pense nisso e veja quantos parceiros você tem.

20 de outubro de 2011

Antecipação X Procrastinação

Antes de 7 de outubro de 2012 tem muita água para rolar sob a ponte

No Brasil, trabalha-se as políticas públicas de 2 em 2 anos. Pior: a sociedade tem cara de quem está viva somente nos intervalos de 730 dias. Por quê isso? Por causa deste sistema eleitoral, no mínimo, esquisito que nos faz ir às urnas a cada dois anos.
Já ouvi a desculpa de que isso ocorre porque as massas de eleitores não teriam condições de votar, de uma única vez, em sete cargos que são: vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, prefeito, governador e presidente da República.
Como o voto é uma conquista social que precisou do sangue derramado de muita gente, vá lá que voltar às sessões eleitorais a cada 730 dias não seja de todo ruim.

O que, de fato, tem me irritado profundamente é que, desde 2010, ouve-se falar das eleições de 2012! Esta antecipação tem sido cada vez mais comum. Mais irritante ainda é que a atual presidente, Dilma Rousseff, nem bem esquentou a cadeira e já tem beócio de plantão antecipando as eleições de 2014!
Pois é. Antecipa-se o que pode esperar e procrastina-se o que tem caráter de emergência. Para quem não conhece o termo, procrastinar é adiar, postergar, deixar para depois.

Via de regra, fazemos isso com muita coisa ao longo da vida. No trabalho, procrastinamos aquela faxina na gaveta. Na escola, a leitura do livro. Na família, postergamos a hora de declarar amor ou fazer um programa juntos. Com os amigos, procrastinamos a ligação para perguntar: 'Como vai?'.

Enfim, sempre deixamos para depois coisas que são fáceis de fazer, e que, apesar da simplicidade, podem repercutir de forma impensável tanto em nossa própria vida quanto para aqueles que são alvo das nossas ações.
Entretanto, somos céleres na antecipação da reclamação, da blasfêmia, da ofensa, da ira. Temos a habilidade ímpar de trazer para hoje o mal de amanhã. Bem recomendou Jesus, o Messias: "Basta a cada dia o seu mal". (Mt. 6:34)

Tal como agimos nos relacionamentos interpessoais, fazemos o mesmo com relação aos temas de interesse social.
Antecipa-se a celeuma sobre quem será o candidato a presidente da República de 2014, e procrastina-se as discussões que, se não são de aplicação imediata, são fundamentais para garantir um mínimo de perspectiva às próximas gerações. Somos imediatistas e egoístas. Colocamos muitos filhos no mundo e esquecemos de preparar um mundo para os nossos filhos.

Daqui a 254 dias vamos começar a receber uma enxurrada de promessas de toda sorte. Vai ter gente prometendo trazer até fast-food americano para a cidade. Será uma algazarra de verbos no futuro: 'farei', 'darei'... Para nos protegermos, o melhor a fazer é prestar atenção nos verbos conjugados no passado, isto é, o que realmente cada nobre cidadão já fez ou, ao menos, intentou fazer.

11 de outubro de 2011

Reflexões de um aniversário

Depois de muito garimpar no mundo virtual e sem acesso ao velho e bom suporte do livro tradicional, estou na encruzilhada típica para a atribuição da autoria de um texto. Na Babilônia que se tornou a Internet, uns atribuem o texto que pesquiso ao Fernando Pessoa e outros a Vinícius de Moraes.

Polêmicas à parte, a concatenação das palavras em apreço traduz muito do que sinto e o que, a duras penas, aprendi ao longo dos meus 12.053 dias completos no último 6 de outubro. Para quem não quer fazer as contas, são exatos 33 anos. Pois é. Já posso ser crucificado, morto e sepultado. Só não tenho garantia alguma quanto a ser ressuscitado.

Como estou ainda um pouco embotado pelas emoções, valho-me da produção intelectual de terceiros para expressar um pouco do que sinto. Assim, além do texto já apresentado acima, publico também o texto "Amigos secretos", de Paulo Sant'Ana, do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre/RS. 


Texto 1

Saudades

Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos. Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho mais tanta certeza disso.  Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida. Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nas cartas que trocaremos.

Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Até que os dias vão passar, meses... anos... até este contacto se tornar cada vez mais raro.

Vamo-nos perder no tempo... Um dia os nossos filhos vão ver as nossas fotografias e perguntarão: "Quem são aquelas pessoas?" Diremos...que eram nossos amigos e isso vai doer tanto!" Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!" A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo.


E, entre lágrimas abraçar-nos-emos. Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes desde aquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado. E perder-nos-emos no tempo... Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida te passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades... Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"


Texto 2
Amigos secretos

Paulo Sant'Ana*


Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela e divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências.

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu [oro] pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!  A gente não faz amigos, reconhece-os.


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* O texto "Amigos secretos" é atribuído, erroneamente, a Vinícius de Moraes.
Contudo, em entrevista à revista Press, Paulo Sant'Ana fala sobre o equívoco.

7 de outubro de 2011

Dedicatória aos Amigos...

Fernando Pessoa

Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos. Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho mais tanta certeza disso.  Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida. Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nas cartas que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Até que os dias vão passar, meses...anos... até este contacto se tornar cada vez mais raro.
Vamo-nos perder no tempo.... Um dia os nossos filhos vão ver as nossas fotografias e perguntarão: "Quem são aquelas pessoas?" Diremos...que eram nossos amigos e...... isso vai doer tanto!"
Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!" A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...... Quando o nosso grupo estiver incompleto... reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo.
E, entre lágrimas abraçar-nos-emos. Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes desde aquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado.
E perder-nos-emos no tempo..... Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida te passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades.... Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"

5 de outubro de 2011

Sementes do mal

O autor do livro de Provérbios, o rei Salomão, registrou um perfil que causa ou deveria causar medo até no mais corajoso dos homens: "Existem sete coisas que o Senhor Deus detesta e que não pode tolerar: 1) o olhar orgulhoso, 2) a língua mentirosa, 3) mãos que matam gente inocente, 4) a mente que faz planos perversos, 5) pés que se apressam para fazer o mal, 6) a testemunha falsa que diz mentiras, e 7) a pessoa que provoca brigas entre amigos" (Linguagem de Hoje). Na versão Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida, o item 7 foi traduzido da seguinte maneira: "o que semeia  contendas entre irmãos".
Há duas edições, falei sobre uma possível plantação de vento e colheita de tempestade. Hoje, retomo a ideia da semente e quero abordar algo que é mais fácil de identificar do que uma plantação de vento.

Considerando que Deus abomina, isto é, não pode tolerar aqueles que incitam uma pessoa contra a outra, é de ficarmos com vergonha alheia quando, sem muita dificuldade, notamos pessoas que fazem parte do nosso convívio e que, com maestria, sabem fazer funcionar uma espécie de sistema de comunicação da maldade.
 Em geral, estes 'profissionais' deste sistema do mal têm alguns jargões na ponta da língua. Vejamos: a) 'Você ficou sabendo?'; b) 'Olha, não diga para ninguém que te contei'; c) 'Pelo amor de Deus, diga que vai guardar segredo!'; d) 'Olha, gosto muito do Fulano, não quero o mal dele, mas...'; e) 'Não estou fofocando, é só pra você ficar por dentro'.

Já ouviu alguma dessas? Pois é, eu também. Apesar de ser um hábito muito feio, existe uma habilidade nestes semeadores de contenda que despertam minha atenção: a cara-de-pau. A capacidade de teatralização deles é sonho de consumo até para Antunes Filho.
Embora eu tenha um espaço de vida relativamente curto, 33 anos, não é difícil apurar pessoas que, em tempo recorde, colhem o que plantou em escala bastante generosa.
Só fico intrigado porque essa colheita é de frutos podres, mas os semeadores da maldade acham que colheram uma safra capaz de dar inveja a qualquer cultivador de soja do Centro-Oeste brasileiro.

Estão convencidos de que sabem o que estão fazendo. Vendem a imagem de altruístas e resignados, ou seja, que tudo o que dizem e fazem é pelo bem das pessoas e que abrem mão de qualquer conflito, desentendimento ou prevalecimento sobre outrem (sic!).
Entretanto, o que está em jogo são os próprios interesses. O que importa, de fato, é o quanto se pode ganhar (não necessariamente com honestidade).
No mau uso de suas atribuições nas empresas, esferas de governo, igreja, clube, associação, enfim, em todos os setores da sociedade este pulgão está presente pronto para fazer definhar qualquer árvore frutífera.

Os semeadores de contenda têm prazer mórbido em ver as pessoas se separarem. Via de regra, quem gosta de contender também busca, a qualquer preço, a bajulação. Digo sempre que o que gostam mesmo é de uma caprichosa 'lambeção' (permitam-me o neologismo).
Quando tentam separar as pessoas de seus núcleos, querem que elas se tornem seus dependentes. Entretanto, a dependência que estimulam não tem o objetivo de agregar para expandir, mas, sim, de reunir para sugar, extorquir, enfraquecer, tolher, mutilar, e, se possível, derrotar.

Retomando a capacidade teatral destes semeadores do mal eles fazem tudo o que está acima com um sorriso amarelo bem estampado em qualquer lugar que passam. Do velório à ação de graças pelo aniversário são capazes de abraçar, desejar condolências e, como um habilidoso tamanduá, dão aquele abraço capaz de estrangular sua vítima.

Se é preciso ter medo deles? Não! Basta sabermos manter uma boa distância e, como cristãos, pedirmos a Deus em favor da redenção de suas almas.

29 de setembro de 2011

A terceira idade e a juventude

Jovens e idosos podem se complementar ao invés de rivalizar

Neste 1º de Outubro comemora-se mais um Dia Nacional do Idoso. A data é uma boa oportunidade para refletir sobre algumas questões em torno do tema.
A população de idosos no Brasil vem crescendo consideravelmente. O avanço da medicina, com a produção de remédios que garantem uma longevidade cada vez maior e melhor aos idosos é um dos fatores para este fenômeno social.
Outra variável que tem contribuído para aumentar a expectativa de vida dos nossos idosos é o cuidado com a saúde por iniciativa deles mesmos que já se propõem à prática de exercícios e acatam as dietas sob prescrição médica com menos resistência.

Embora alguns ainda insistam em serem teimosos como uma mula empacada e chegam a dizer: 'médico não sabe de nada!'. Haja cabelos para se arrancar!
Cabeças-duras à parte, independente dos fatores que contribuem para que tenhamos o privilégio de conviver por mais tempo com nossos idosos, há muito o que se fazer com e por eles.

Infelizmente, o aumento da população de idosos já repercute com sinais de alerta de grande intensidade. Isso porque, lamentavelmente, muitos deles ao perderem a mobilidade, ao se tornarem mais dependentes de filhos, netos e bisnetos acabam por receber desprezo e, em não poucos casos, até abandono como retribuição.
Como cidadãos com o mínimo de consciência, devemos ter sempre atenção para os casos de maus tratos e violência que, eventualmente, podemos identificar na vizinhança.

No meu romantismo poético, acredito que não deveríamos ter este tipo de problema social. Forjados com valores judaico-cristãos poderíamos viver em sociedade com atitudes individuais e coletivas que não maculassem a imagem e memória dos nossos idosos.
O grande legislador Moisés registrou um mandamento divino que é incisivo no tocante ao tratamento dos idosos: "Fiquem de pé na presença das pessoas idosas e as tratem com todo o respeito" (Lv. 19:32 - Linguagem de Hoje)
Ora, se a simples presença de um idoso merecia a honraria de que os mais jovens se levantassem diante deles, presume-se que os mesmos além de honra recebiam o cuidado e atenção que precisavam receber.

O livro de Provérbios, compilado pelo sábio rei Salomão, afirma o seguinte: "A beleza dos jovens está na sua força, e o enfeite dos velhos são os seus cabelos brancos. Uma vida longa é a recompensa das pessoas honestas; os seus cabelos brancos são uma coroa de glória." (Pv 16:31; 20:29).
Embora os textos estejam registrados na Bíblia, um livro adotado apenas pelos cristãos como regra de fé e prática, os princípios acima são válidos para qualquer grupo religioso, de qualquer geração e em qualquer grupamento social no globo terrestre.
Argumento sempre que as gerações precisam buscar o equilíbrio se quisermos assegurar o bem-estar social para o maior número possível de pessoas.

Quando os mais jovens ouvem os mais experientes, além da dádiva permanente do aprendizado –um benefício para si–, eles beneficiam direta e intensamente ao velhinho ou velhinha que se sente útil ao compartilhar suas experiências.
Por muitas vezes, ao invés de tentarmos nos complementar e, com isso, enriquecermos mutuamente, optamos pelo fechamento em gueto, a famosa panela. Temos a panela dos mais jovens, a dos de meia idade e a dos 'velhos'.

À revelia do que o Criador planejou, preferimos nos chafurdarmos no desconhecimento juvenil e, muitos idosos talvez por decepção, cansaço ou mesmo por má vontade, não se dispõem a compartilhar suas experiências.
Reconheço que posso estar sonhando, talvez delirando ou defendendo uma utopia, mas como jovem que ainda sonha, preciso alimentar-me desta esperança. Quem sabe se eu viver até minha velhice algo disso seja realizável?

22 de setembro de 2011

A colheita

Segundo o profeta Oséias, a semeadura de vento resulta numa colheita de tempestade

Nunca ouvi falar sobre uma mangueira dá mamão ou uma bananeira pender com um cacho de uvas. Felizmente, as leis da natureza são tão firmes e bem definidas que impressionam o mais displicente observador. Ao contrário de nossas regras sociais, costumes e decretos promulgados ao sabor do governante do momento, as leis naturais se mantém desde os primórdios da criação.

Se conseguíssemos aplicar seus princípios em sua plenitude nas nossas relações humanas, teríamos mais sucesso do que quando, fingindo-nos racionais, adotamos posturas bestiais.
Embora não sejamos bons replicadores de algumas leis universais, quer queiramos ou não, quer nos apercebamos ou não, elas se manifestam na nossa vida de maneira tão real e sutil quanto o Sol faz evaporar as águas.

Uma dessas leis que se cumprem em nossas vidas de maneira irrevogável e irreversível é a da semeadura. Gosto de uma expressão do apóstolo Paulo, registrada em sua epístola aos cristãos da Galácia, que tem muita popularidade especialmente entre os mais velhos: "Tudo o que o homem semear, isso também ceifará". A afirmação paulina geralmente é repetida entre os de maior idade porque, via de regra, precisamos de algumas pancadas na vida para descobrir a veracidade e contundência disso.

Como resultado dos erros que cometemos ao longo da vida, sentimos na própria carne a dor do aprendizado. Se nos recusamos a mudar de atitude mesmo depois de muito apanhar, o tempo, como mestre implacável, prova e comprova que todo semeador colhe o que plantou não interessa o que, onde ou quando o tenha feito.
O profeta Oséias que exerceu seu papel entre os anos 750 e 730 anos a.C. disse certa vez: "Eles semearam ventos e colherão tempestades". A linguagem poética apresenta uma figura interessante que é a de plantar vento e, o mais curioso, colher tempestade. Qualquer mortal sabe que isso não é possível no mundo físico.

Como o vento é ar em movimento, logo, não é possível juntar as moléculas, prender num potinho e enterrar para que ele germine e desabroche como uma 'bela' tempestade.
Também não consigo imaginar como seria uma plantação de tempestade. Tampouco o que utilizaríamos para 'catar' o que talvez fossem colunas de vento como um redemoinho ou tornado.

Embora no mundo físico esta lavoura de ventos não seja materializável, no mundo invisível ela é perfeitamente perceptível.
Quando semeamos frieza, distanciamento, prepotência, desconfiança, inveja, ciúmes, contenda etc, num primeiro momento, existe um prazer imediato. Surge uma satisfação pessoal por atingir, do pior modo possível, os mais vis propósitos.
As 'sementes' acima têm como resultado imediato uma aparente 'vantagem' sobre o próximo. O ego fica massageado e surge um vão sentimento de grandeza e força.

Ainda que um ego exaltado engane-se com uma suposta superioridade, a colheita pode parecer tardia, mas é certa. Aquelas sementes resultam numa colheita da solidão, uma percepção da qual o próprio Cristo tentou se esquivar.
O sentimento de abandono fez com que ele perguntasse a Deus porque o havia desamparado. Era a solidão que o Mestre queria evitar. Ora, se ele, que fez tanto bem e espalhou tantas sementes de amor e paz, não conseguiu se livrar da dor da solidão, quem não semeia nada de bom que pode esperar?

Para quem gosta de planejar a vida, este é um fator importante a se considerar. O que se quer colher na breve existência terrena? Queremos ter um ombro amigo e leal para chorar nos momentos de dor ou vamos nos agarrar ao primeiro tronco de árvore por falta de uma companhia?
Ao tropeçarmos, teremos alguém que nos estenda a mão para amparar ou mesmo para reerguernos ou ficaremos prostrados? Estas respostas dependem exatamente do que semeamos agora.

15 de setembro de 2011

Futebol e política

A associação das duas palavrinhas do título deve soar como coisa de um colunista ensandecido. Contudo, posso assegurar que estou são do juízo (ao menos por enquanto). Um argumento que me ajuda a ter a percepção de que não enlouqueci é de que não rasgo dinheiro, ainda.
Pode parecer estapafúrdia a ideia de juntar uma modalidade esportiva que é considerada uma paixão nacional -o futebol- e uma ciência social que, embora negligenciada, atinja a vida de todos quer reconheçamos isso ou não.

Não sou um torcedor exemplar. Nenhum time nacional ou estrangeiro é chamado de 'meu'. Até mesmo pela seleção brasileira de futebol faz muito tempo que não torço. A última Copa do Mundo que ainda sofri foi a de 1990, realizada na Itália. Naquela14ª edição do evento os jogadores brasileiros eram conduzidos pelo técnico Sebastião Lazaroni.
Mesmo sendo este ignorante de pai e mãe quanto ao futebol, existem algumas questões dentro e fora das quatro linhas que chamam minha atenção e gostaria de compartilhá-las.

A primeira que salta-me aos olhos é a mobilização dos torcedores. Como fenômeno social, o futebol não chega a ser objeto de tanto estudo sistemático e aprofundado, mas é necessário reconhecer o seu poder de alcance. Poder tal que mobiliza massas humanas de modo a lotarem arquibancadas de imensos estádios de futebol como Maracanã e Morumbi.

Todo o movimento acontece porque, em linhas gerais, os torcedores querem tremular suas bandeiras, soltar rojões, fazer buzinaço e tudo o que for possível para comemorar o gol ou melhor, os muitos gols do seu time. Essa história de que o 'importante é competir' não é bem verdade. Na prática, o que se quer a qualquer preço, justo ou não, é a vitória do time.
O grau de paixão dos torcedores também desperta minha atenção. Acho engraçado quando as unhas são devoradas, os cabelos arrancados, as testas franzidas, os sons coletivos de desespero, aquela onda de "uuuuuuhhhh" que toma conta do estádio quando a bola quase entra, mas como ser de vontade própria, insiste em não balançar a rede.

O envolvimento do torcedor com as jogadas dos atletas chega ao nível dos membros se movimentarem involuntariamente. As pernas chutam o ar, os punhos cerram-se para golpear o vazio, as contorções de caras e bocas bem podem ser replicadas como máscaras para noite de terror.
A memória dos torcedores também é outro fator que se destaca, ao menos para mim. Existem torcedores que impressionam pelo nível de conhecimento das possibilidades de táticas para vencer uma partida. Milhões sabem o perfil de cada jogador escalado e dos que estão no banco de reservas. Outros recitam como poesia a quantidade de vezes que a bola balançou a rede contra e a favor, adversários futuros etc.

Se desenvolvêssemos como cidadãos a mesma paixão que aprimoramos como torcedores, com certeza, teríamos outras condições sociais, políticas e econômicas. Se nos apaixonássemos pelas nossas cidades, Estados e País com ao menos metade da paixão que é devotada a um time, teríamos uma visão diferente de nós mesmos e, melhor, não seríamos apenas fruto de suposições, nos tornaríamos sociedade de resultados.
Se acompanhássemos cada etapa dos processos políticos do Brasil com o entusiasmo que caracteriza aqueles que acreditam em si e no próximo, teríamos a possibilidade de diminuir o número de fanfarrões que pleiteiam funções públicas no Executivo e Legislativo apenas para "se dar bem".

Meu desejo sincero, que talvez não seja concretizado na minha geração, é que nos tornemos cidadãos tão apaixonados e comprometidos com nosso País quanto somos pelo futebol. Se isso é utopia? Deve ser. Mas, sonhar, ainda não me custa nada e, de quebra, acalenta a alma.

7 de setembro de 2011

Do que reclamamos?

Considerando que nesta semana rotulada como "da Pátria", recebo uma avalanche de mensagens que compõem um mix de nostalgia, utopia e falácia, gostei e compartilho uma postagem anônima que está circulando em blogs, perfis de Facebook, e-mail e tudo o mais.
Infelizmente, sou obrigado a reconhecer que existe verdade em cada linha. A mensagem começa daqui para a frente.

Tá Reclamando do Lula? do Serra? da Dilma? do Arruda? do Sarney? do Collor? do Renan? do Palocci?  do Delúbio? da Roseanne Sarney? Dos políticos distritais de Brasília? do Jucá? do Kassab? do Dr. Hélio? dos mais 300 picaretas do Congresso? Brasileiro reclama de quê?

O Brasileiro faz o seguinte:
1) Coloca nome em trabalho que não fez;
2) Assina nome de colega que faltou em aula;
3) Paga para alguém fazer trabalhos;
4) Saqueia cargas de veículos acidentados;
5) Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas;
6) Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração;
7) Troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, e até dentadura;
8) Fala no celular enquanto dirige;
9) Usa o telefone da empresa onde trabalha para ligar para o celular dos amigos (me dá um toque que eu retorno) - assim o amigo não gasta nada;
10) Trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento;
11) Para em filas duplas, triplas, em frente de escolas;
12) Viola a lei do silêncio;
13) Dirige embriagado;
14) Fura filas nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas;
15) Espalha churrasqueira e mesas nas calçadas;
16) Pega atestado médico sem estar doente, só para faltar ao trabalho;
17) Faz "gato" de luz, de água e de TV a cabo;
18) Registra imóveis no cartório num valor abaixo do comprado, muitas vezes irrisórios, só para pagar menos impostos;
19) Compra recibo para abater na declaração de renda para pagar menos imposto;
20) Mente a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas;
21) Quando viaja a serviço pela empresa, se o almoço custou R$ 10, pede nota fiscal de R$ 20;
22) Comercializa objetos doados nessas campanhas de catástrofes;
23) Estaciona em vagas exclusivas para deficientes;
24) Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado;
25) Substitui o catalisador do carro por um que só tem a casca;
26) Diminui a idade do filho para que este passe por baixo da roleta do ônibus, sem pagar passagem;
27) Emplaca o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA;
28) Frequenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo do bicho;
29) Leva das empresas onde trabalha, pequenos objetos, como clipes, envelopes, canetas, lápis... como se isso não fosse roubo;
30) Comercializa os vales refeição e transporte que recebe das empresas;
31) Falsifica tudo, tudo mesmo... só não falsifica aquilo que ainda não foi inventado;
32) Quando volta do exterior, nunca diz a verdade quando o fiscal aduaneiro pergunta o que traz na bagagem;
33) Quando encontra algum objeto perdido, na maioria das vezes, não devolve.

Depois disso tudo ainda quer que os políticos sejam honestos?! Escandaliza-se com o mensalão, o dinheiro na cueca, a farra das passagens aéreas?! Esses políticos que aí estão saíram do meio desse mesmo povo! Ou não?
Brasileiro reclama de quê, afinal? E é a mais pura verdade, isso que é o pior! Se quisermos melhora, é obrigatório começar por nós mesmos, onde for necessário, ainda que isso doa na própria carne!

Fala-se tanto da necessidade deixar um planeta melhor para os nossos filhos e esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores (educados, honestos, dignos, éticos, responsáveis) para o nosso planeta, através dos nossos exemplos. Colhemos o que plantamos! A mudança deve começar dentro de nós, nossas casas, nossos valores, nossas atitudes.

1 de setembro de 2011

Inveja da Líbia (parte 2)

Como saboroso fruto do artigo da edição anterior, recebi uma resposta riquíssima enviada pela arquiteta Marise Nigro, a quem tenho orgulho de apresentar como colega de trabalho e também posso atribuir o título mais nobre do meu modesto círculo de relacionamentos: amiga.

Foi ela quem alertou para uma aresta no meu raciocínio da semana passada que faço questão de elucidar. No artigo anterior, mencionei a questão dos líbios terem se voluntariado a empunhar armas e lutar pelo que definem ser liberdade.
Também questionei quando e se, de fato, um dia, nosso festivo povo brasileiro vai querer lutar pelo que entendem ser sua Pátria. Numa primeira leitura, bem pode parecer que desejo ver nosso povo com fuzis na mão. Ponderei sobre esta possibilidade de interpretação, logo depois que li as considerações de minha amiga Marise.
Como testemunha ocular da Ditadura Militar, –o mais desconhecido e omitido momento da História do Brasil, ao menos para quem não viveu a época–, ela salientou que já tivemos, sim, brasileiros que lutaram e doaram a própria vida contra arbitrariedades muito menores que as praticadas por Kadhafi.

Embora tenha inveja dos líbios e não me envaideça tanto pelos meus compatriotas de hoje, é meu dever render uma singela homenagem aos brasileiros de ontem que, em nome da justiça, liberdade, igualdade social, abdicaram de suas vidas e sonhos para lutar por causas coletivas.
Alguns deles sobreviveram para nos contar. Outros não tiveram a mesma oportunidade sendo que dezenas, senão, centenas de famílias nunca puderam sepultar os seus mortos. Infelizmente, temos pouco ou nenhum interesse em ouví-los e aprender as lições de civilidade que os moldaram enquanto sofriam na sala de aula da pior professora: a dor.
Em sua argumentação, Marise me comoveu ao recordar: "Tive familiares presos e torturados, amigos mortos, negado o meu direito de me reunir com meus amigos, andar em turma, votar e escolher, ainda que pessimamente, meus governantes.  Quando na faculdade, fui testemunha de bombas, espancamentos, injustiças com professores brilhantes. Vivi num país deserto de intelectuais, professores, artistas e agentes culturais, personalidade e opiniões.
Creia-me, amigo, foi o inferno na Terra. Você nunca podia ter certeza se o amigo do seu lado não era um agente infiltrado dos órgãos de repressão. Derrubaram nossos teatros, abandonamos família, amigos e vivemos na clandestinidade: estávamos em guerra. Por muito menos que um Kadhafi fizemos nossa guerra civil."
Ela ainda vaticinou: "As grandes lições do passado, a história de um povo, da construção de sua liberdade, o exercício da democracia, defeituosa, mas, plena, não podem ser esquecidas. Pense nisso: quem esquece o passado sofre o risco de repetir os mesmos erros no futuro!"

À luz desta reflexão, argumentei com Marise o que, agora, compartilho com todos. Sou parte de uma geração que nada sofreu, nada renunciou, nada perdeu e, de repente, pode ser que, lá na frente, nos apercebamos que nada ganhamos e nada construímos e, pior, tal qual areia, deixamos escapar por entre os dedos as conquistas seladas com o sangue do nosso povo.

Ainda que a nuvem densa do medo queira estacionar sobre minha cabeça, prefiro esperar pelo vento impetuoso de coragem que desperte a minha geração a tempo de construirmos e não apenas de lamentarmos pelo que não fizemos.
Quero acender uma centelha de esperança de que os "soldados" que o País precisa estão apenas aparelhando suas armas: uma pena afiada, uma percepção aguçada, um coração apaixonado e uma disposição implacável pela mudança. Que o amor à Pátria, que tão bem movia brasileiros como a Marise e tantos outros, inunde os nossos corações e sejamos cidadãos atuantes e firmes no propósito de contribuir com o nosso Brasil.

29 de agosto de 2011

Um coração de boa memória

"A gratidão é alimentada e impulsionada por uma boa memória"

"Quero trazer à memória o que pode me trazer esperança." (Lamentações de Jeremias 3:21). Em meio ao caos que Jeremias registrou após 40 anos profetizando que Israel sofreria a pena por sua dureza espiritual, exatamente no meio do livro de seu cântico, no capítulo 3 ele insere um atestado de confiança no cuidado de Deus. 
À luz desta resolução do profeta, aprendo que temos a necessidade de estar sempre trazendo à memória as operações de Deus em nossas vidas. Não importa o que foi feito, mas se foi Ele quem operou, não seríamos dignos de receber, Ele o fez por absoluta graça e misericórdia.
Embora Deus tenha uma memória que não esquece de nada do que fazemos em prol de sua obra, a mente humana precisa de alguns recursos para que a memória seja ativada da melhor maneira. Entendo que, por isso, Jesus instituiu a Santa Ceia. Caso contrário, o sacrifício do Calvário teria sido esquecido logo após a morte do último membro da geração que viu a expiação.

O salmista fala sobre os sucessivos esquecimentos aos feitos de Deus por parte de Israel. "Nossos pais não entenderam as tuas maravilhas no Egito; não se lembraram da multidão das tuas misericórdias; antes o provocaram no mar, sim no Mar Vermelho. Porém cedo se esqueceram das suas obras; não esperaram o seu conselho. Esqueceram-se de Deus, seu Salvador, que fizera grandezas no Egito" (Salmo 106:7, 13, 21). 

Para contrastar, no mesmo salmo a memória de Deus é apresentada: "Lembra-te de mim, SENHOR, segundo a tua boa vontade para com o teu povo; visita-me com a tua salvação. E se lembrou da sua aliança, e se compadeceu segundo a multidão das suas misericórdias." (vv. 4, 45). O profeta messiânico, Isaías, revelou anos mais tarde à escrita do salmo: "Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti." (Isaías 49:15).

O salmista também ordenou: "Lembrem-se das maravilhas que ele fez, dos seus prodígios e das sentenças de juízo que pronunciou" (Salmo 105:5). Quem tem boa memória espiritual, faz crescer um espírito grato, confiante e pautado nas promessas de Deus e não nas circunstâncias.
Quem esquece das promessas de Deus desenvolve o medo e entrega os pontos. Hagar, no deserto, com Ismael esqueceu da promessa feita a ela quando ainda estava gerando o rapaz. 

No capítulo 6 do livro de Gênesis está a promessa: "Então lhe disse o anjo do SENHOR: Torna-te para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos. Disse-lhe mais o anjo do SENHOR: Multiplicarei sobremaneira a tua descendência, que não será contada, por numerosa que será. Disse-lhe também o anjo do SENHOR: Eis que concebeste, e darás à luz um filho, e chamarás o seu nome Ismael; porquanto o SENHOR ouviu a tua aflição. E ele será homem feroz, e a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele; e habitará diante da face de todos os seus irmãos. E ela chamou o nome do SENHOR, que com ela falava: Tu és Deus que me vê; porque disse: Não olhei eu também para aquele que me vê?" (Gn. 6:9-13).

Anos mais tarde, uma vez despedida por Abraão, o contexto se tornou ruim: acabou a comida, acabou a água e a morte parecia certa. Mas havia uma promessa de Deus para Ismael que fora proferida no capítulo 6.Quando Hagar entrega os pontos por causa da memória fraca Deus novamente intervém:
"E consumida a água do odre, lançou o menino debaixo de uma das árvores.
E foi assentar-se em frente, afastando-se à distância de um tiro de arco; porque dizia: Que eu não veja morrer o menino. E assentou-se em frente, e levantou a sua voz, e chorou. E ouviu Deus a voz do menino, e bradou o anjo de Deus a Agar desde os céus, e disse-lhe: Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino desde o lugar onde está. Ergue-te, levanta o menino e pega-lhe pela mão, porque dele farei uma grande nação. E abriu-lhe Deus os olhos, e viu um poço de água; e foi encher o odre de água, e deu de beber ao menino. E era Deus com o menino, que cresceu; e habitou no deserto, e foi flecheiro."(Gênesis 21:14-21)

Entre os 12 espias enviados por Moisés para conhecer a terra de Canaã, apenas Josué e Calebe tinham boa memória espiritual. Pela péssima memória dez deles estavam focados nas limitações e não nas possibilidades, preferiam superestimar o inimigo e, pior, queriam voltar para o Egito e serem escravos mais uma vez. "Porém, os homens que com ele subiram disseram: Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós. Éramos aos nossos olhos como gafanhotos e assim também éramos aos seus olhos" (Num. 13:31, 33; 14:4). Quem esquece as promessas constrói seu discurso centrado no inimigo, vaticinando a própria derrota. Se nos deixamos vencer pela desesperança, que é um sinal de memória espiritual fraca, agimos com covardia, nos esquivamos, fugimos das responsabilidades e, por vezes, adotamos o discurso da derrota antes mesmo da batalha. 

Com boa memória espiritual, Josué e Calebe se diferenciaram na sua geração. Tinham coragem, confiavam no Senhor e tinham fé suficiente para animar aos demais, quase se tornaram vítimas dos incrédulos e murmuradores, mas foram resguardados pelo Senhor. 
"E Josué, filho de Num, e Calebe filho de Jefoné, dos que espiaram a terra, rasgaram as suas vestes. E falaram a toda a congregação dos filhos de Israel, dizendo: A terra pela qual passamos a espiar é terra muito boa. Se o SENHOR se agradar de nós, então nos porá nesta terra, e no-la dará; terra que mana leite e mel. Tão-somente não sejais rebeldes contra o SENHOR, e não temais o povo dessa terra, porquanto são eles nosso pão; retirou-se deles o seu amparo, e o SENHOR é conosco; não os temais. Mas toda a congregação disse que os apedrejassem; porém a glória do SENHOR apareceu na tenda da congregação a todos os filhos de Israel." (Num. 14:6-10)

Gideão é um exemplo de quem tem boa memória, mas não está agindo de acordo com o que pode. Apesar de não estar no melhor lugar para fazer seu trabalho, ele queria ver na sua geração a realização dos feitos que ouvia falar. Sua postura questionadora não foi discriminada pelo Anjo do Senhor, pelo contrário, foi endossada pela palavra: "Vai nesta tua força". "Então o anjo do SENHOR veio, e assentou-se debaixo do carvalho que está em Ofra, que pertencia a Joás, abiezrita; e Gideão, seu filho, estava malhando o trigo no lagar, para o salvar dos midianitas. Então o anjo do SENHOR lhe apareceu, e lhe disse: O SENHOR é contigo, homem valoroso. Mas Gideão lhe respondeu: Ai, Senhor meu, se o SENHOR é conosco, por que tudo isto nos sobreveio? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o SENHOR subir do Egito? Porém agora o SENHOR nos desamparou, e nos deu nas mãos dos midianitas. Então o SENHOR olhou para ele, e disse: Vai nesta tua força, e livrarás a Israel das mãos dos midianitas; porventura não te enviei eu?" (Juízes 6:11-14).

Que tenhamos todos uma memória melhor, pautada no que Deus já fez e nas promessas que Ele mesmo garantiu que vai fazer.

25 de agosto de 2011

Inveja da Líbia

Amadureci com a informação de que a inveja é um sentimento pecaminoso. Acredito que realmente o seja, mas devo confessar que em alguns momentos ela parece ser a coisa que mais quer prevalecer na mente.
De acordo com o Google, em linha reta, estamos há mais de 8.900km de distância de Trípoli, capital da Líbia. Mesmo a esta distância, nunca estive tão envolvido por um povo quanto estive nos últimos dias pelos líbios.
Embora lamente a morosidade que eles tiveram para uma reviravolta contra quase 42 anos de ditadura de um tirano, sou obrigado a atribuir-lhes a presunção da inocência uma vez que não conheço as razões que fizeram com que se mantivessem em condição tão subserviente por tanto tempo.
De qualquer forma, a deposição de Kadhafi do governo, embora pareça tardia, deve ser mesmo muito celebrada pelos líbios e os povos de outras nações da terra devem aprender com o caso.
E o que isso tem a ver com a inveja que citei no primeiro parágrafo? Tive inveja da disposição dos líbios em lutar pelo que eles entendem ser liberdade.
Problemas diplomáticos internacionais à parte, eles, os líbios, empunharam armas, dispuseram-se a doar as próprias vidas em prol de uma causa. Aqui a inveja apoderou-se de mim. Procurei por uma palavra que fosse menos pesada para traduzir o que senti, mas acabei ficando com inveja mesmo.
De acordo com o dicionário ela, a inveja, pode ser definida como 1) Misto de desgosto e ódio provocado pelo sucesso ou pelas posses de outrem; 2) Desejo intenso de possuir os bens de alguém ou de usufruir sua felicidade.
Para este momento fico com a última definição: "desejo de usufruir a felicidade de alguém". Isso porque desejei a felicidade que parte da população líbia está sentindo por ser ver livre do homem que pode ter seu nome grafado de 112 maneiras, segundo um site de notícias português.
Não estou com inveja a ponto de querer que os líbios se percam neste processo de transição, mas estou com inveja a ponto de perguntar porque eu e mais outros tantos milhões de brasileiros não temos a mesma postura para lutar pelo nosso país.
Alguém poderá dizer que não precisamos disso porque, como canta Benito Di Paula, moramos "em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza!".
Com versos que exaltam as belezas naturais sobre as quais não aplicamos nenhum esforço para construir, mas nos empenhamos arduamente para destruir, nos anestesiamos contra coisas que deveriam nos causar dores, asco, revolta, e, no ápice dos sentimentos, nos levar à mudança.
Tenho inveja dos líbios porque, em algum momento, eles decidiram que queriam mudar. Cá pelos trópicos, fico a me questionar quando e se vamos querer, de fato, viver num país mais justo e igualitário.
Posso mesmo estar parecendo melancólico, talvez melodramático, mas não consigo abafar este grito. O fato é que sinto-me vencido, sem expectativa, quase derrotado por um sistema de coisas que prefere o jeitinho à solução, a enrolação ao planejamento, a corrupção à ética.
Temos sidos bombardeados por situações escandalosas, denúncias, acusações. Algumas comprovadas, outras apenas fruto de gente mal intencionada e nada comprometida com o desenvolvimento do país.
De qualquer forma, cheguei a uma conclusão dolorosa, que me dá uma clareza que não gostaria de chegar. Nos queixamos da corrupção de políticos. Mas pergunto: quem os escolheu? Somos um povo sem educação e, ao que parece, não estamos interessados em estudar.
A grande maioria de nós é facilmente enganada. Se interessa e reproduz fofoca, mas não tem o menor interesse em conhecer o que está registrado e pode ser comprovado. Se o povo líbio comemora a liberdade pós-ditadura, temos ao menos que sonhar com o dia que nos veremos livres das cadeias do comodismo e conformação.

18 de agosto de 2011

As notícias que ninguém publica

O jornalista Pedro Bial afirmou certa vez: "Nas viagens de cobertura jornalística, as melhores histórias nunca chegam a ser contadas". Ao me deparar com uma afirmação tão contundente que vem assinada por uma pessoa com bagagem tão densa comemorei pelo fato de ter alguém que concorda comigo e lamentei porque, como não se publica as melhores histórias, somos bombardeados com as piores.

Não quero com isso defender um noticiário apenas com pétalas de rosas e leite de colônia. A guerra talvez exista para que saibamos valorizar a paz. Falando nisso, é engraçado -para não dizer ridículo- que a mente humana apresenta argumentos sobre como estabelecer a paz a partir da fabricação de armas de guerra e do treinamento de soldados prontos para matar, mas nem tão dispostos a morrer.

Mas, voltemos para o que inspirou a coluna desta semana. A partir da reflexão de Bial passei a ponderar sobre as riquíssimas histórias que estão guardadas em cada pessoa. Acumuladas em uma família, numa vila, no ambiente de trabalho, na escola, na igreja, na arquibancada de um estádio, nos barracões, nas mansões, nos casebres, nos viadutos e castelos.

Como outros milhões de brasileiros, utilizo sempre uma Mercedes, com motorista particular que tem o costume de pegar muitos 'amigos' por onde passa. Mesmo sendo um veículo de grife, acaba ficando um pouquinho apertado pelo tanto de 'amigos' que precisam utilizá-lo. Quase sempre é tanta gente que uso algumas barras estrategicamente distribuídas na Mercedes para não beijar o chão forçadamente. Ai de mim não fossem elas!

Nesta Mercedes já vivi experiências que fariam inveja a qualquer atleta de esportes radicais. Isso porque alguns dos meus diletos motoristas quase comportam-se como pilotos de Fórmula Indy. Mesmo não tendo um tapete para deslizar seus pés de borracha. Aliás eles trafegam sobre vias que mais lembram o solo lunar. Mesmo assim, divertem-se com manobras que fazem levar a mão à boca para impedir que os lábios se movimentem e emitam sons de palavras pouco decorosas.

Momentos de adrenalina à parte... Dentro destas Mercedes, que vulgarmente chamamos de 'busão', sempre ponho-me a pensar sobre quantas histórias tem em minha volta que jamais poderei conhecer. Esse desconhecimento é fruto ou da timidez de seus protagonistas ou pelo desinteresse de qualquer pessoa em registrá-las.

Talvez muitos destes personagens de carne e osso só se tornassem interessantes para a massa se fossem alvos de tiro, sequestro relâmpago, acidentes 'ultra-mega-master' espetaculares e outras tragédias.
Infelizmente, este interesse que alimentamos apenas pelo que é grotesco é mais velho e poderoso que eu. As páginas dos jornais, as reportagens de rádio e TV, as publicações da Internet vão sempre destacar o vil e relegar o belo a uma pincelada. O gracioso desperta menos interesse que o monstruoso. A dor aguça mais a curiosidade que o prazer. A derrota alheia parece dopar a plateia pela simples conclusão: 'ainda bem que não foi comigo'.

Se, contudo, as histórias de gente simples não vendem jornais e revistas, tão pouco dão audiência em televisão, proponho que ao menos tentemos conhecer o universo infinito e sempre inexplorado destas dezenas, centenas, milhares e milhões de pessoas que nos cercam todos os dias e que, para facilitar a identificação, simplesmente chamamos de próximo.

Estes "próximos" são pais que tentam dar o melhor para seus filhos. Uns conseguem, outros não.  São maridos que cuidam de suas esposas no leito de morte. Umas sobrevivem, outras partem. São filhos que sonham com a cura do pai. São crianças que apenas querem crescer no mundo que possa ser chamado de decente.

Suas notícias podem não virar documentário de TV, mas podem enriquecer, e muito, a vida daqueles que com eles optarem por aprender e, de modo absolutamente simples e grandioso, crescer.

8 de agosto de 2011

Confiança na direção de Deus

Na noite de número 219 do ano de 2011, ouvi um depoimento que vou guardar como exemplo de dependência e confiança. Antes de contar o depoimento, permita-me situar o relato no espaço, uma vez que já o fiz no tempo. Estávamos em oito pessoas, num dos muitos estabelecimentos do que conhecemos na região de Jundiaí como "Beco Fino". Este local fica na avenida 9 de Julho, que foi recentemente concluída depois de 'séculos' de obras. Lerdezas públicas à parte, uma vez concluída a avenida ficou "xiki nu úrtimo". Tão chique que sinto-me cidadão de "premero-mundo" ao passar por ela de carro (sempre de carona) ou a pé.

Depois de dizer para a atendente quais os componentes do meu lanche –primeira vez que optei por esse luxo– nos sentamos para acalmar as lombrigas e colocar os assuntos em dia. Felizmente, ando com gente elitizada que não perde tempo falando mal de ausentes. Os assuntos são sempre de papo-cabeça. Mas, de vez em quando a rivalidade dos gêneros se faz anunciar, especialmente quando o assunto é volante, direção, carro, trânsito e temas correlatos.

Como de praxe, as meninas foram rechaçadas em seus hábitos ao volante. É claro que elas refutam, tentam argumentar contrariamente, mas a supremacia masculina sempre prevalece. Embora, os meninos mantenham-se valentes e firmes apenas até a ameaça de não mais ganhar beijinho no fim da noite. Aí, elas retomam as rédeas. Entre uma experiência e outra, uma das integrantes da mesa recordou um episódio que tinha tudo para ser trágico, mas, felizmente, ficou no status de hilário.

Para não expor a imagem da peralta, não vou citar nomes. A menos que ela aceite se pronunciar. Nossa motorista precisou levar sua irmã até a rodoviária de Campinas. Havia um receio grande porque ela tinha acabado de receber a CNH. Contudo, o contexto obrigou-a a atender a irmã e pegar o trânsito de uma cidade gigantesca. Até aqui, tudo bem. No mínimo, um ato de coragem, digno de nota pela disponibilidade.

A irmã da motorista disse que daria todos os detalhes que garantiriam o retorno da recém-habilitada. Além da coragem, as duas merecem destaque pela dose exacerbada de fé. Sem dinheiro, dispunham de apenas R$ 5 (cinco reais) e tinham plena convicção de que seria possível fazer o trajeto de 80 km entre Jundiaí e Campinas (ida e volta).

Se considerarmos que em janeiro de 1998, o litro da gasolina custava R$ 0,811 e o de álcool R$ 0,694, a fortuna que as irmãs dispunham permitiria o abastecimento do veículo com 6 litros de gasolina ou  7 de álcool. Haja fé! Com tudo isso, as irmãs pegaram a estrada. Chegaram em Campinas no tempo necessário para o embarque.

No caminho, foram passadas todas as orientações para que a volta à Jundiaí fosse tranquila. Após a despedida da irmã, a motorista que estava elegantemente calçada com apenas uma havaiana e sequer dispunha de celular, pegou a estrada para voltar. Mas, com tanta experiência ao volante e ainda conhecendo tanto do trânsito de Campinas quanto se conhece a rota dos cometas, é claro que se perdeu.

Sem nenhum centavo de real adicional em mão e sem saber a rota a seguir, se perdeu. A motorista relata que andou muito no sentido interior. Até que viu um grupo de operários em uma via. Ela parou e pediu orientação. Um dos homens deu todas as coordenadas para que ela conseguisse fazer o retorno. Mas, o nervoso e a inexperiência forçaram uma única resposta: "Moço, eu não vou conseguir". Felizmente, ainda tem gente solidária. O instrutor se dispôs a entrar no veículo e ir com a perdida até o ponto a partir do qual ela só teria que seguir em frente sem desviar nem para a direita, nem para a esquerda. Depois que este "salvador da pátria" anônimo entrou no carro com a motorista e a deixou no ponto de partida para pegar o rumo certo, o regresso ao lar se tornou irreversível.

Esta história fez-me perceber a importância da confiança. Mesmo sem conhecer aquele homem que avistou à beira da estrada, a motorista sequer parou para pensar no risco que corria ao colocá-lo no veículo. Mas o medo de não achar o caminho de volta para casa era menor do que o receio de qualquer perigo extra. Isso remete-me a uma oração do salmista que pediu: "Faze-me ouvir a tua benignidade pela manhã, pois em ti confio; faze-me saber o caminho que devo seguir, porque a ti levanto a minha alma" (Salmo 143:8).

Deus, de fato, tem absoluto interesse em nos mostrar o caminho a seguir. Se por quaisquer motivos ficarmos desorientados, perdidos, sem saber que direção tomar, Ele como Pai Justo e Bom sempre terá disposição para entrar no carro e nos dizer para onde ir. Se nossa motorista recém-habilitada teve confiança em um desconhecido que a colocaria no caminho certo de volta para casa, o mesmo vale para que possamos confiar em Deus de modo a que, se estivermos fora do centro de Sua vontade, encontremos o caminho de volta.

 
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