24 de novembro de 2011

Transferência de responsabilidade

Esta semana, fui pego de assalto por um misto de revolta e indignação em função do circo armado pela imprensa nacional e local em torno do assunto da venda de bebida alcoólica a menores.
Os argumentos para as operações cinematográficas de fiscalização aos bares, restaurantes e até baile de 15 anos, para verificar o consumo de álcool por menores de 18 anos são, no mínimo, fracos!

De repente, uma onda de proteção a pessoas tão indefesas, desprotegidas, sem amparo. Ó, pobres coitados destes adolescentes! Sim, estou sendo irônico, se todos os predicados ainda não deixaram claro.
Quando digo que os argumentos para as medidas de fiscalização são fracos, faço-o não para desmerecer a legislação, mas para ressaltar que não bastam as leis.
Meu posicionamento arredio não é, no primeiro momento, com as questões da Lei. Se a legislação existe, deve ter lá seu mérito. Contudo, o fato de alguém ter lavrado, leis, decretos, resoluções, códigos civil e penal ou qualquer coisa que o valha, não tira a responsabilidade da família.

Os donos dos estabelecimentos que comercializam bebidas alcoólicas, reconheço, devem exercer a cidadania que se presume. Fico apenas tentando imaginar quantos fiscais seriam necessários para autuar, em caso de irregularidade, o que a lei prevê. Vejamos: bares, restaurantes, padarias, postos de gasolina, casas de espetáculos, lojas de conveniências, feiras, bufês, clubes e até eventos fechados.
Considerando que o país tem mais de 5 mil municípios fica fácil a fiscalização por agentes públicos! Todas as prefeituras devem converter professores, faxineiros, motoristas, secretários, diretores, coordenadores em fiscais integrais que cumpram carga horária de segunda a segunda, preferencialmente, das 21 horas às 5 horas da manhã.

Ora, façam-me o favor! Nem as Forças Armadas agindo em conjunto com polícias Civil, Militar e Guardas Municipais dariam conta de controlar um exército milhares de vezes maior, formado por adolescentes mal educados, rebeldes, com famílias desestruturadas.
Não é possível conter que adolescentes consumam cerveja, cachaça, whisky, vodka, tequila e batidas de toda sorte se eles são estimulados e até treinados pelos próprios pais. Contra a irresponsabilidade da família não há leis. Se o filho se embriaga a primeira vez, aos 12, 13, 14 anos e encontra a conveniência dos pais o que as autoridades vão fazer?

Transferir responsabilidade é fácil. Pais dizerem que não controlam mais os filhos, é, no mínimo, um absurdo! Há um adágio popular que soa vulgar, mas recorro a ele agora: "Pariu seus Mateus, que se balance!".
Ninguém venha com essa de dizer que não consegue mais manter a rédea de suas crias. Não poder é uma coisa, não querer é outra. Assumam a culpa pela irresponsabilidade e procurem, por todos os meios, compensar o dano causado à sociedade pela má educação de seus filhos. Uma campanha no Facebook alerta: "Faça um favor para a humanidade: quando for preciso, diga não para os seus filhos. A sociedade agradece."

É ainda digno de virar anedota todo este picadeiro sobre a questão do menor estar consumindo bebida alcóolica, se considerarmos outras aberrações sustentadas pela lei. Este mesmo menor que deve ser "protegido da bebida", pode solicitar título de eleitor e, pasmem, decidir sobre quem governa! E, se ao dirigir provocar um acidente com vítimas, vejam só, ele não pode ser preso! Não sei se devo rir ou chorar.

18 de novembro de 2011

Trabalho de muitas mãos

Dependemos de mãos alheias, do nascimento à morte

A imagem que ilustra este post, reconheço, é clichê, mas os conceitos que ela pode representar nunca caem de moda.
Quando a nossa sanidade está sob risco, tentamos nos convencer que somos auto-suficientes, independentes e pretensamente superiores. Após o juízo ser restabelecido, normalmente pelos tombos ao longo da vida, percebemos o quanto precisamos uns dos outros.

Essa é uma condição que nos acompanha desde o nascimento. Neste momento é certo que nos esforçamos para sair da primeira casa, o útero, mas se a mãe não fizesse aquele esforço hercúleo, a parceria do nascimento não se estabeleceria.
Além de mãe e filho há sempre alguém para ajudar. Nos tempos antigos existiam as parteiras. A modernidade ajudou a aumentar o número de mãos trabalhando na concepção. Enfermeiros, médicos, até pais menos covardes, e com um pouquinho mais de dinheiro, podem não ajudar, mas acompanhar o milagre da vida. A 'grande' ajuda deles é ficar dizendo no ouvido da esposa: 'amor, você consegue'. Enquanto ele se contorce mais que ela.

A dependência de mãos alheias continua depois do primeiro choro. Alguém pega nos braços, limpa, coloca no peito da mãe para o primeiro contato, leva para o banho e devolve à mãe ainda descabelada. Sem as mãos dos milhões de profissionais da saúde que se dedicam nisso, as mães ficariam loucas sem saber onde estaria seus rebentos e os recém-nascidos sem perspectivas.

Só para encurtar caminho, dependemos das mãos alheias até depois de mortos. Sem elas nossa casa terrena, o corpo, ficaria exposto sem o mínimo de respeito. São pelas mãos dos outros que os corpos são guardados para voltar ao pó como era. Mórbido de minha parte? Acredito que não. Afinal, esta é uma das poucas certezas da vida: a partida.

Mas entre o ano de nascimento e o de morte cravados na lápide ou registrado quando citam alguém já falecido existe um traço. Tomo este traço, agora, como símbolo da soma de dias vividos. Em seu transcurso, tudo é feito com a soma do esforço de muitas mãos.

Da casa que moramos à alimentação diária seja ela em casa, na cozinha da empresa ou nos restaurantes, em tudo há trabalho feito por mãos de terceiros.
Se temos uma cidade limpa para transitar, alguma mão se empenhou nisso. Se há ruas e avenidas projetadas, grandes e pequenas construções, escolas, hospitais, museus, teatros, cinema, lojas, enfim, em tudo atuaram mãos que desconhecemos. Desde a mão do arquiteto, que pôs o sonho da cabeça de alguém na prancheta, até o pedreiro que deu forma à construção.

Independente de nossas mãos serem reconhecidas ou não, é de bom tom, pelo menos reconhecermos as mãos alheias. A colheita pode demorar, mas é certa.

10 de novembro de 2011

Erros e acertos

Caso o projeto original da criação do homem pudesse ser desenhado ou escrito para ser lido ou interpretado na linguagem humana, muito provavelmente ele seria algo que, de tão belo, seria considerado raro, precioso, digno de integrar o acervo do maior e melhor museu ou biblioteca do mundo.
Ainda que pessoas como o escritor português José Saramago (1922 - 2010) tenha dito que "a humanidade não merece a vida" e que a "história da humanidade é um desastre" tenho absoluta tranquilidade em dizer que ele estava errado.

Mesmo que ao longo dos séculos tenhamos cometido muitos erros, não acredito que devamos ser medidos por eles, e, sim, pelos nossos acertos. É bem verdade que a exploração desordenada dos recursos naturais, a poluição da 'casa' que o Criador nos deu para morar e cuidar, as intervenções desastrosas no leito de rios, são erros que, se não vem com a fatura para a geração que os cometeu, sem dúvida as gerações sequentes, um dia, colhem os resultados das infelizes escolhas dos seus antecessores.
Como raça humana erramos, e muito, quando optamos pelas armas ao invés do diálogo. Nos mantemos num padrão de desvio do projeto original do Criador quando nos determinamos a arquitetar e executar o mal.
Ainda que nossas falhas pessoais sejam abundantes o que decorre em erros coletivos, felizmente, para cada erro existe um acerto. Antes que uma ação errada seja executada, primeiro, ela foi formulada na mente, devidamente fortalecida e, finalmente, praticada.
Se para o errado há um fluxograma de concretização, os acertos seguem a mesma lógica, porém com um agravante: nem sempre acertar é uma ação tomada sem dor ou, no mínimo, renúncia.
O erro, por sua vez, ao menos durante sua execução, dá uma sensação de prazer, por vezes mórbido.
Nunca experimentei nenhum tipo de drogas, mas mesmo sabendo-se de toda ilegalidade, o uso delas para o dependente químico é um erro que dá prazer e, como os efeitos passam rápido, o erro se repete muitas vezes durante um único dia.
Também é errado alimentarmos e satisfazermos os sentimentos de vingança. Contudo, via de regra, cedemos a esta mesquinharia e nos enganamos quando, ao executarmos a vingança, seja ela em que escala for, achamos que estamos prejudicando ao alvo, quando, na verdade, fazemos mal muito maior a nós mesmos.
Para não focar apenas nos nossos muitos erros, quero concluir falando de acertos. Eles, ao contrário dos erros. Acertar implica em renúncia, revisão de pontos de vistas, mudança de rota, esvaziamento, calar na hora que se quer berrar, dar um abraço quando se quer dar um murro, andar mais uma milha quando não se tem mais força para dar sequer mais um passo.
Um dos acertos mais dolorosos é o perdão. Na jornada da vida temos sempre muitos e intensos conflitos. Não bastassem os internos, temos ainda as guerras públicas. Algumas a gente até lembra quando, onde e porque começou. Outras são justificadas por razões que, analisando friamente, faria corar de vergonha até um gélido cadáver.
Quando discordo de Saramago de que o homem não merece a vida, faço-o com base em alguns exemplos que povoam minha mente. Poucos? Diria que não são na quantidade que eu gostaria, mas consolo-me com o fato de que eles existem. Refiro-me a pessoas que tiveram a dignidade de rever posições, baixar a guarda, livrar-se das armas e permitir-se ao crescimento ímpar decorrente do perdão.

3 de novembro de 2011

Parceria 2

No post anterior, falei sobre parceria e conclui propondo uma revisão na lista de parceiros. Quantos e quem são eles em nossa trajetória de vida?
Ao fazer a propositura, evidentemente já tinha realizado o check-list com aqueles que estabeleceram alguma parceria comigo. Ao olhar para ontem e dar um pouco mais de atenção ao hoje, o mínimo que se desperta é um sentimento de gratidão.

Cada pessoa que integra essa galeria de parceiros deu a sua contribuição para que eu seja o que sou neste momento. Se tenho o que melhorar? E como! Mas não tenho dúvidas que seria muito pior não fosse a vivência com cada um.
Nessa galeria, que não é da fama, mas é a da minha vida –e isso é o que importa–, tem pessoas que conviveram por muito tempo e tem aqueles que fizeram apenas uma breve passagem e, nas atuais circunstâncias pouco consigo ver ou falar. Contudo, a distância e o silêncio não apagam suas contribuições. Tem também aqueles com quem não posso mais telefonar, escrever, tocar. Posso, no máximo, recordar de cada momento vivido das lágrimas ao riso.

Quando olho para meus quadros de parceiros, vejo crianças, jovens, homens e mulheres. Tem gente de toda sorte, com todos os níveis de formação, com as mais diversas preferências, gostos, vivências, origens.

Olhar para os parceiros e ter um olhar crítico sobre suas personalidades permite descobrirmos o quanto são diferentes de nós. Exatamente nestas diferenças está a beleza e riqueza da vida e das relações humanas.
Tenho um conceito romântico da vida. Acredito que o Criador nos concebeu com tantas particularidades para que pudéssemos encontrar a complementação.

Infelizmente, fazemos mal uso de tudo isso e optamos pelos conflitos, nos adaptamos a uma concorrência desleal e, com isso, perdemos, deixamos de contemplar, não angariamos riquezas que transcendem a matéria. Enfim, não vivemos o projeto divino de, pela comunhão, descobrirmos, aprendermos, crescermos.
Apesar de todos os nossos defeitos e mazelas, olho para os muitos parceiros na vida e não consigo deixar de me empolgar. Muitos deles, na verdade, nem sabem o valor que lhes devoto, mas são meus parceiros.

Na minha galeria constam homens e mulheres que, cada um à sua medida, enriquecem-me com o romantismo, criatividade, garra, sensibilidade, objetividade, força física e espiritual entre outras contribuições voluntárias ou não.
Por serem parceiros, isso não significa que estamos isentos das discordâncias. Aliás, parceiros de verdade não são aqueles que endossam tudo e qualquer coisa que falemos ou façamos. Os melhores parceiros são aqueles que discordam, que apontam o lado contrário.

A parceria não é sinônimo de cumplicidade para o erro. Também não pode ser considerado parceiro quem percebe que estamos dando passos para a ruína, mas não tem coragem de, se necessário, dar um 'tapa na cara' para que possamos despertar.
Não tenho vergonha nenhuma, pelo contrário, sinto até um certo orgulho e ligeira vaidade por reconhecer no meu casting de parceiros pessoas muito melhores que eu em tudo!
 
Mesmo estando à minha frente, permitem-me ouvir, aprender e, ainda que muito lentamente, melhorar. Pelo que as palavras conseguem expressar e por tudo o mais que é lícita apenas à comunicação entre as almas, deixo aqui meu tributo aos parceiros de perto e de longe, de contato frequente ou esporádico, o meu singelo, mas nem por isso menos profundo, muito obrigado.

 
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