29 de agosto de 2011

Um coração de boa memória

"A gratidão é alimentada e impulsionada por uma boa memória"

"Quero trazer à memória o que pode me trazer esperança." (Lamentações de Jeremias 3:21). Em meio ao caos que Jeremias registrou após 40 anos profetizando que Israel sofreria a pena por sua dureza espiritual, exatamente no meio do livro de seu cântico, no capítulo 3 ele insere um atestado de confiança no cuidado de Deus. 
À luz desta resolução do profeta, aprendo que temos a necessidade de estar sempre trazendo à memória as operações de Deus em nossas vidas. Não importa o que foi feito, mas se foi Ele quem operou, não seríamos dignos de receber, Ele o fez por absoluta graça e misericórdia.
Embora Deus tenha uma memória que não esquece de nada do que fazemos em prol de sua obra, a mente humana precisa de alguns recursos para que a memória seja ativada da melhor maneira. Entendo que, por isso, Jesus instituiu a Santa Ceia. Caso contrário, o sacrifício do Calvário teria sido esquecido logo após a morte do último membro da geração que viu a expiação.

O salmista fala sobre os sucessivos esquecimentos aos feitos de Deus por parte de Israel. "Nossos pais não entenderam as tuas maravilhas no Egito; não se lembraram da multidão das tuas misericórdias; antes o provocaram no mar, sim no Mar Vermelho. Porém cedo se esqueceram das suas obras; não esperaram o seu conselho. Esqueceram-se de Deus, seu Salvador, que fizera grandezas no Egito" (Salmo 106:7, 13, 21). 

Para contrastar, no mesmo salmo a memória de Deus é apresentada: "Lembra-te de mim, SENHOR, segundo a tua boa vontade para com o teu povo; visita-me com a tua salvação. E se lembrou da sua aliança, e se compadeceu segundo a multidão das suas misericórdias." (vv. 4, 45). O profeta messiânico, Isaías, revelou anos mais tarde à escrita do salmo: "Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti." (Isaías 49:15).

O salmista também ordenou: "Lembrem-se das maravilhas que ele fez, dos seus prodígios e das sentenças de juízo que pronunciou" (Salmo 105:5). Quem tem boa memória espiritual, faz crescer um espírito grato, confiante e pautado nas promessas de Deus e não nas circunstâncias.
Quem esquece das promessas de Deus desenvolve o medo e entrega os pontos. Hagar, no deserto, com Ismael esqueceu da promessa feita a ela quando ainda estava gerando o rapaz. 

No capítulo 6 do livro de Gênesis está a promessa: "Então lhe disse o anjo do SENHOR: Torna-te para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos. Disse-lhe mais o anjo do SENHOR: Multiplicarei sobremaneira a tua descendência, que não será contada, por numerosa que será. Disse-lhe também o anjo do SENHOR: Eis que concebeste, e darás à luz um filho, e chamarás o seu nome Ismael; porquanto o SENHOR ouviu a tua aflição. E ele será homem feroz, e a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele; e habitará diante da face de todos os seus irmãos. E ela chamou o nome do SENHOR, que com ela falava: Tu és Deus que me vê; porque disse: Não olhei eu também para aquele que me vê?" (Gn. 6:9-13).

Anos mais tarde, uma vez despedida por Abraão, o contexto se tornou ruim: acabou a comida, acabou a água e a morte parecia certa. Mas havia uma promessa de Deus para Ismael que fora proferida no capítulo 6.Quando Hagar entrega os pontos por causa da memória fraca Deus novamente intervém:
"E consumida a água do odre, lançou o menino debaixo de uma das árvores.
E foi assentar-se em frente, afastando-se à distância de um tiro de arco; porque dizia: Que eu não veja morrer o menino. E assentou-se em frente, e levantou a sua voz, e chorou. E ouviu Deus a voz do menino, e bradou o anjo de Deus a Agar desde os céus, e disse-lhe: Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino desde o lugar onde está. Ergue-te, levanta o menino e pega-lhe pela mão, porque dele farei uma grande nação. E abriu-lhe Deus os olhos, e viu um poço de água; e foi encher o odre de água, e deu de beber ao menino. E era Deus com o menino, que cresceu; e habitou no deserto, e foi flecheiro."(Gênesis 21:14-21)

Entre os 12 espias enviados por Moisés para conhecer a terra de Canaã, apenas Josué e Calebe tinham boa memória espiritual. Pela péssima memória dez deles estavam focados nas limitações e não nas possibilidades, preferiam superestimar o inimigo e, pior, queriam voltar para o Egito e serem escravos mais uma vez. "Porém, os homens que com ele subiram disseram: Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós. Éramos aos nossos olhos como gafanhotos e assim também éramos aos seus olhos" (Num. 13:31, 33; 14:4). Quem esquece as promessas constrói seu discurso centrado no inimigo, vaticinando a própria derrota. Se nos deixamos vencer pela desesperança, que é um sinal de memória espiritual fraca, agimos com covardia, nos esquivamos, fugimos das responsabilidades e, por vezes, adotamos o discurso da derrota antes mesmo da batalha. 

Com boa memória espiritual, Josué e Calebe se diferenciaram na sua geração. Tinham coragem, confiavam no Senhor e tinham fé suficiente para animar aos demais, quase se tornaram vítimas dos incrédulos e murmuradores, mas foram resguardados pelo Senhor. 
"E Josué, filho de Num, e Calebe filho de Jefoné, dos que espiaram a terra, rasgaram as suas vestes. E falaram a toda a congregação dos filhos de Israel, dizendo: A terra pela qual passamos a espiar é terra muito boa. Se o SENHOR se agradar de nós, então nos porá nesta terra, e no-la dará; terra que mana leite e mel. Tão-somente não sejais rebeldes contra o SENHOR, e não temais o povo dessa terra, porquanto são eles nosso pão; retirou-se deles o seu amparo, e o SENHOR é conosco; não os temais. Mas toda a congregação disse que os apedrejassem; porém a glória do SENHOR apareceu na tenda da congregação a todos os filhos de Israel." (Num. 14:6-10)

Gideão é um exemplo de quem tem boa memória, mas não está agindo de acordo com o que pode. Apesar de não estar no melhor lugar para fazer seu trabalho, ele queria ver na sua geração a realização dos feitos que ouvia falar. Sua postura questionadora não foi discriminada pelo Anjo do Senhor, pelo contrário, foi endossada pela palavra: "Vai nesta tua força". "Então o anjo do SENHOR veio, e assentou-se debaixo do carvalho que está em Ofra, que pertencia a Joás, abiezrita; e Gideão, seu filho, estava malhando o trigo no lagar, para o salvar dos midianitas. Então o anjo do SENHOR lhe apareceu, e lhe disse: O SENHOR é contigo, homem valoroso. Mas Gideão lhe respondeu: Ai, Senhor meu, se o SENHOR é conosco, por que tudo isto nos sobreveio? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o SENHOR subir do Egito? Porém agora o SENHOR nos desamparou, e nos deu nas mãos dos midianitas. Então o SENHOR olhou para ele, e disse: Vai nesta tua força, e livrarás a Israel das mãos dos midianitas; porventura não te enviei eu?" (Juízes 6:11-14).

Que tenhamos todos uma memória melhor, pautada no que Deus já fez e nas promessas que Ele mesmo garantiu que vai fazer.

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