18 de agosto de 2011

As notícias que ninguém publica

O jornalista Pedro Bial afirmou certa vez: "Nas viagens de cobertura jornalística, as melhores histórias nunca chegam a ser contadas". Ao me deparar com uma afirmação tão contundente que vem assinada por uma pessoa com bagagem tão densa comemorei pelo fato de ter alguém que concorda comigo e lamentei porque, como não se publica as melhores histórias, somos bombardeados com as piores.

Não quero com isso defender um noticiário apenas com pétalas de rosas e leite de colônia. A guerra talvez exista para que saibamos valorizar a paz. Falando nisso, é engraçado -para não dizer ridículo- que a mente humana apresenta argumentos sobre como estabelecer a paz a partir da fabricação de armas de guerra e do treinamento de soldados prontos para matar, mas nem tão dispostos a morrer.

Mas, voltemos para o que inspirou a coluna desta semana. A partir da reflexão de Bial passei a ponderar sobre as riquíssimas histórias que estão guardadas em cada pessoa. Acumuladas em uma família, numa vila, no ambiente de trabalho, na escola, na igreja, na arquibancada de um estádio, nos barracões, nas mansões, nos casebres, nos viadutos e castelos.

Como outros milhões de brasileiros, utilizo sempre uma Mercedes, com motorista particular que tem o costume de pegar muitos 'amigos' por onde passa. Mesmo sendo um veículo de grife, acaba ficando um pouquinho apertado pelo tanto de 'amigos' que precisam utilizá-lo. Quase sempre é tanta gente que uso algumas barras estrategicamente distribuídas na Mercedes para não beijar o chão forçadamente. Ai de mim não fossem elas!

Nesta Mercedes já vivi experiências que fariam inveja a qualquer atleta de esportes radicais. Isso porque alguns dos meus diletos motoristas quase comportam-se como pilotos de Fórmula Indy. Mesmo não tendo um tapete para deslizar seus pés de borracha. Aliás eles trafegam sobre vias que mais lembram o solo lunar. Mesmo assim, divertem-se com manobras que fazem levar a mão à boca para impedir que os lábios se movimentem e emitam sons de palavras pouco decorosas.

Momentos de adrenalina à parte... Dentro destas Mercedes, que vulgarmente chamamos de 'busão', sempre ponho-me a pensar sobre quantas histórias tem em minha volta que jamais poderei conhecer. Esse desconhecimento é fruto ou da timidez de seus protagonistas ou pelo desinteresse de qualquer pessoa em registrá-las.

Talvez muitos destes personagens de carne e osso só se tornassem interessantes para a massa se fossem alvos de tiro, sequestro relâmpago, acidentes 'ultra-mega-master' espetaculares e outras tragédias.
Infelizmente, este interesse que alimentamos apenas pelo que é grotesco é mais velho e poderoso que eu. As páginas dos jornais, as reportagens de rádio e TV, as publicações da Internet vão sempre destacar o vil e relegar o belo a uma pincelada. O gracioso desperta menos interesse que o monstruoso. A dor aguça mais a curiosidade que o prazer. A derrota alheia parece dopar a plateia pela simples conclusão: 'ainda bem que não foi comigo'.

Se, contudo, as histórias de gente simples não vendem jornais e revistas, tão pouco dão audiência em televisão, proponho que ao menos tentemos conhecer o universo infinito e sempre inexplorado destas dezenas, centenas, milhares e milhões de pessoas que nos cercam todos os dias e que, para facilitar a identificação, simplesmente chamamos de próximo.

Estes "próximos" são pais que tentam dar o melhor para seus filhos. Uns conseguem, outros não.  São maridos que cuidam de suas esposas no leito de morte. Umas sobrevivem, outras partem. São filhos que sonham com a cura do pai. São crianças que apenas querem crescer no mundo que possa ser chamado de decente.

Suas notícias podem não virar documentário de TV, mas podem enriquecer, e muito, a vida daqueles que com eles optarem por aprender e, de modo absolutamente simples e grandioso, crescer.

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