25 de agosto de 2011

Inveja da Líbia

Amadureci com a informação de que a inveja é um sentimento pecaminoso. Acredito que realmente o seja, mas devo confessar que em alguns momentos ela parece ser a coisa que mais quer prevalecer na mente.
De acordo com o Google, em linha reta, estamos há mais de 8.900km de distância de Trípoli, capital da Líbia. Mesmo a esta distância, nunca estive tão envolvido por um povo quanto estive nos últimos dias pelos líbios.
Embora lamente a morosidade que eles tiveram para uma reviravolta contra quase 42 anos de ditadura de um tirano, sou obrigado a atribuir-lhes a presunção da inocência uma vez que não conheço as razões que fizeram com que se mantivessem em condição tão subserviente por tanto tempo.
De qualquer forma, a deposição de Kadhafi do governo, embora pareça tardia, deve ser mesmo muito celebrada pelos líbios e os povos de outras nações da terra devem aprender com o caso.
E o que isso tem a ver com a inveja que citei no primeiro parágrafo? Tive inveja da disposição dos líbios em lutar pelo que eles entendem ser liberdade.
Problemas diplomáticos internacionais à parte, eles, os líbios, empunharam armas, dispuseram-se a doar as próprias vidas em prol de uma causa. Aqui a inveja apoderou-se de mim. Procurei por uma palavra que fosse menos pesada para traduzir o que senti, mas acabei ficando com inveja mesmo.
De acordo com o dicionário ela, a inveja, pode ser definida como 1) Misto de desgosto e ódio provocado pelo sucesso ou pelas posses de outrem; 2) Desejo intenso de possuir os bens de alguém ou de usufruir sua felicidade.
Para este momento fico com a última definição: "desejo de usufruir a felicidade de alguém". Isso porque desejei a felicidade que parte da população líbia está sentindo por ser ver livre do homem que pode ter seu nome grafado de 112 maneiras, segundo um site de notícias português.
Não estou com inveja a ponto de querer que os líbios se percam neste processo de transição, mas estou com inveja a ponto de perguntar porque eu e mais outros tantos milhões de brasileiros não temos a mesma postura para lutar pelo nosso país.
Alguém poderá dizer que não precisamos disso porque, como canta Benito Di Paula, moramos "em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza!".
Com versos que exaltam as belezas naturais sobre as quais não aplicamos nenhum esforço para construir, mas nos empenhamos arduamente para destruir, nos anestesiamos contra coisas que deveriam nos causar dores, asco, revolta, e, no ápice dos sentimentos, nos levar à mudança.
Tenho inveja dos líbios porque, em algum momento, eles decidiram que queriam mudar. Cá pelos trópicos, fico a me questionar quando e se vamos querer, de fato, viver num país mais justo e igualitário.
Posso mesmo estar parecendo melancólico, talvez melodramático, mas não consigo abafar este grito. O fato é que sinto-me vencido, sem expectativa, quase derrotado por um sistema de coisas que prefere o jeitinho à solução, a enrolação ao planejamento, a corrupção à ética.
Temos sidos bombardeados por situações escandalosas, denúncias, acusações. Algumas comprovadas, outras apenas fruto de gente mal intencionada e nada comprometida com o desenvolvimento do país.
De qualquer forma, cheguei a uma conclusão dolorosa, que me dá uma clareza que não gostaria de chegar. Nos queixamos da corrupção de políticos. Mas pergunto: quem os escolheu? Somos um povo sem educação e, ao que parece, não estamos interessados em estudar.
A grande maioria de nós é facilmente enganada. Se interessa e reproduz fofoca, mas não tem o menor interesse em conhecer o que está registrado e pode ser comprovado. Se o povo líbio comemora a liberdade pós-ditadura, temos ao menos que sonhar com o dia que nos veremos livres das cadeias do comodismo e conformação.

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