8 de agosto de 2011

Confiança na direção de Deus

Na noite de número 219 do ano de 2011, ouvi um depoimento que vou guardar como exemplo de dependência e confiança. Antes de contar o depoimento, permita-me situar o relato no espaço, uma vez que já o fiz no tempo. Estávamos em oito pessoas, num dos muitos estabelecimentos do que conhecemos na região de Jundiaí como "Beco Fino". Este local fica na avenida 9 de Julho, que foi recentemente concluída depois de 'séculos' de obras. Lerdezas públicas à parte, uma vez concluída a avenida ficou "xiki nu úrtimo". Tão chique que sinto-me cidadão de "premero-mundo" ao passar por ela de carro (sempre de carona) ou a pé.

Depois de dizer para a atendente quais os componentes do meu lanche –primeira vez que optei por esse luxo– nos sentamos para acalmar as lombrigas e colocar os assuntos em dia. Felizmente, ando com gente elitizada que não perde tempo falando mal de ausentes. Os assuntos são sempre de papo-cabeça. Mas, de vez em quando a rivalidade dos gêneros se faz anunciar, especialmente quando o assunto é volante, direção, carro, trânsito e temas correlatos.

Como de praxe, as meninas foram rechaçadas em seus hábitos ao volante. É claro que elas refutam, tentam argumentar contrariamente, mas a supremacia masculina sempre prevalece. Embora, os meninos mantenham-se valentes e firmes apenas até a ameaça de não mais ganhar beijinho no fim da noite. Aí, elas retomam as rédeas. Entre uma experiência e outra, uma das integrantes da mesa recordou um episódio que tinha tudo para ser trágico, mas, felizmente, ficou no status de hilário.

Para não expor a imagem da peralta, não vou citar nomes. A menos que ela aceite se pronunciar. Nossa motorista precisou levar sua irmã até a rodoviária de Campinas. Havia um receio grande porque ela tinha acabado de receber a CNH. Contudo, o contexto obrigou-a a atender a irmã e pegar o trânsito de uma cidade gigantesca. Até aqui, tudo bem. No mínimo, um ato de coragem, digno de nota pela disponibilidade.

A irmã da motorista disse que daria todos os detalhes que garantiriam o retorno da recém-habilitada. Além da coragem, as duas merecem destaque pela dose exacerbada de fé. Sem dinheiro, dispunham de apenas R$ 5 (cinco reais) e tinham plena convicção de que seria possível fazer o trajeto de 80 km entre Jundiaí e Campinas (ida e volta).

Se considerarmos que em janeiro de 1998, o litro da gasolina custava R$ 0,811 e o de álcool R$ 0,694, a fortuna que as irmãs dispunham permitiria o abastecimento do veículo com 6 litros de gasolina ou  7 de álcool. Haja fé! Com tudo isso, as irmãs pegaram a estrada. Chegaram em Campinas no tempo necessário para o embarque.

No caminho, foram passadas todas as orientações para que a volta à Jundiaí fosse tranquila. Após a despedida da irmã, a motorista que estava elegantemente calçada com apenas uma havaiana e sequer dispunha de celular, pegou a estrada para voltar. Mas, com tanta experiência ao volante e ainda conhecendo tanto do trânsito de Campinas quanto se conhece a rota dos cometas, é claro que se perdeu.

Sem nenhum centavo de real adicional em mão e sem saber a rota a seguir, se perdeu. A motorista relata que andou muito no sentido interior. Até que viu um grupo de operários em uma via. Ela parou e pediu orientação. Um dos homens deu todas as coordenadas para que ela conseguisse fazer o retorno. Mas, o nervoso e a inexperiência forçaram uma única resposta: "Moço, eu não vou conseguir". Felizmente, ainda tem gente solidária. O instrutor se dispôs a entrar no veículo e ir com a perdida até o ponto a partir do qual ela só teria que seguir em frente sem desviar nem para a direita, nem para a esquerda. Depois que este "salvador da pátria" anônimo entrou no carro com a motorista e a deixou no ponto de partida para pegar o rumo certo, o regresso ao lar se tornou irreversível.

Esta história fez-me perceber a importância da confiança. Mesmo sem conhecer aquele homem que avistou à beira da estrada, a motorista sequer parou para pensar no risco que corria ao colocá-lo no veículo. Mas o medo de não achar o caminho de volta para casa era menor do que o receio de qualquer perigo extra. Isso remete-me a uma oração do salmista que pediu: "Faze-me ouvir a tua benignidade pela manhã, pois em ti confio; faze-me saber o caminho que devo seguir, porque a ti levanto a minha alma" (Salmo 143:8).

Deus, de fato, tem absoluto interesse em nos mostrar o caminho a seguir. Se por quaisquer motivos ficarmos desorientados, perdidos, sem saber que direção tomar, Ele como Pai Justo e Bom sempre terá disposição para entrar no carro e nos dizer para onde ir. Se nossa motorista recém-habilitada teve confiança em um desconhecido que a colocaria no caminho certo de volta para casa, o mesmo vale para que possamos confiar em Deus de modo a que, se estivermos fora do centro de Sua vontade, encontremos o caminho de volta.

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