1 de setembro de 2011

Inveja da Líbia (parte 2)

Como saboroso fruto do artigo da edição anterior, recebi uma resposta riquíssima enviada pela arquiteta Marise Nigro, a quem tenho orgulho de apresentar como colega de trabalho e também posso atribuir o título mais nobre do meu modesto círculo de relacionamentos: amiga.

Foi ela quem alertou para uma aresta no meu raciocínio da semana passada que faço questão de elucidar. No artigo anterior, mencionei a questão dos líbios terem se voluntariado a empunhar armas e lutar pelo que definem ser liberdade.
Também questionei quando e se, de fato, um dia, nosso festivo povo brasileiro vai querer lutar pelo que entendem ser sua Pátria. Numa primeira leitura, bem pode parecer que desejo ver nosso povo com fuzis na mão. Ponderei sobre esta possibilidade de interpretação, logo depois que li as considerações de minha amiga Marise.
Como testemunha ocular da Ditadura Militar, –o mais desconhecido e omitido momento da História do Brasil, ao menos para quem não viveu a época–, ela salientou que já tivemos, sim, brasileiros que lutaram e doaram a própria vida contra arbitrariedades muito menores que as praticadas por Kadhafi.

Embora tenha inveja dos líbios e não me envaideça tanto pelos meus compatriotas de hoje, é meu dever render uma singela homenagem aos brasileiros de ontem que, em nome da justiça, liberdade, igualdade social, abdicaram de suas vidas e sonhos para lutar por causas coletivas.
Alguns deles sobreviveram para nos contar. Outros não tiveram a mesma oportunidade sendo que dezenas, senão, centenas de famílias nunca puderam sepultar os seus mortos. Infelizmente, temos pouco ou nenhum interesse em ouví-los e aprender as lições de civilidade que os moldaram enquanto sofriam na sala de aula da pior professora: a dor.
Em sua argumentação, Marise me comoveu ao recordar: "Tive familiares presos e torturados, amigos mortos, negado o meu direito de me reunir com meus amigos, andar em turma, votar e escolher, ainda que pessimamente, meus governantes.  Quando na faculdade, fui testemunha de bombas, espancamentos, injustiças com professores brilhantes. Vivi num país deserto de intelectuais, professores, artistas e agentes culturais, personalidade e opiniões.
Creia-me, amigo, foi o inferno na Terra. Você nunca podia ter certeza se o amigo do seu lado não era um agente infiltrado dos órgãos de repressão. Derrubaram nossos teatros, abandonamos família, amigos e vivemos na clandestinidade: estávamos em guerra. Por muito menos que um Kadhafi fizemos nossa guerra civil."
Ela ainda vaticinou: "As grandes lições do passado, a história de um povo, da construção de sua liberdade, o exercício da democracia, defeituosa, mas, plena, não podem ser esquecidas. Pense nisso: quem esquece o passado sofre o risco de repetir os mesmos erros no futuro!"

À luz desta reflexão, argumentei com Marise o que, agora, compartilho com todos. Sou parte de uma geração que nada sofreu, nada renunciou, nada perdeu e, de repente, pode ser que, lá na frente, nos apercebamos que nada ganhamos e nada construímos e, pior, tal qual areia, deixamos escapar por entre os dedos as conquistas seladas com o sangue do nosso povo.

Ainda que a nuvem densa do medo queira estacionar sobre minha cabeça, prefiro esperar pelo vento impetuoso de coragem que desperte a minha geração a tempo de construirmos e não apenas de lamentarmos pelo que não fizemos.
Quero acender uma centelha de esperança de que os "soldados" que o País precisa estão apenas aparelhando suas armas: uma pena afiada, uma percepção aguçada, um coração apaixonado e uma disposição implacável pela mudança. Que o amor à Pátria, que tão bem movia brasileiros como a Marise e tantos outros, inunde os nossos corações e sejamos cidadãos atuantes e firmes no propósito de contribuir com o nosso Brasil.

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