4 de fevereiro de 2011

Engasgado

A 'grande' notícia política desta semana foi a volta dos parlamentares a Brasília. Se estivesse falando sobre qualquer outro grupo da sociedade, deveria utilizar o termo "volta ao trabalho". Porém, as imagens estáticas e em movimento que são divulgadas lembram um circo, não, um ambiente de trabalho.
O jornal Correio Braziliense, de 1º de fevereiro, destacou que o dia da posse dos 513 deputados e 54 senadores custou R$ 500 mil. Na prática, a conta é ainda mais alta. Isso porque os deputados e senadores que renovaram seus mandatos dispõem da verba indenizatória e do cotão parlamentar para bancar suas despesas. Segundo técnicos legislativos, a soma do que é gasto por estreantes e veteranos pode chegar perto de R$ 1 milhão.

Pois é, quando qualquer um dos pobres mortais, que recebem salário mínimo, chegam aos seus locais de trabalho pela primeira vez, o máximo que ouvem é um 'seja bem-vindo'.
Mas, para os parlamentares, não basta a garantia de um salário de R$ 26.723,13 mil. A bagatela foi garantida no dia 15 de dezembro do ano passado em uma das votações que deve ser um recorde mundial em velocidade para leitura (se é que leram), análise e aprovação.

Os 'pobrezinhos' ganhavam apenas R$ 16.512 mil, daí a necessidade de aumentar o próprio salário em 61,8%. O soldo mensal deve ser uma compensação pelo grande esforço que precisam fazer na elaboração de planos para desviar dinheiro de todas as fontes possíveis. Em quatro anos, cada parlamentar vai faturar cerca de R$ 1,5 milhão no contracheque. Está fora desta conta as outras despesas com os nobres legisladores.

Deve ser muito difícil ficar de 'picuinha' pelos corredores da Esplanada pensando em como derrubar um, como enfraquecer o outro, como pegar o cargo de presidente, diretor ou qualquer função que garanta uma experiência prática de um verso do Hino Nacional: "Deitado eternamente em berço esplêndido". Joaquim Osório Duque Estrada, autor do Hino, referia-se ao território brasileiro, mas os políticos adotaram o verso e fizeram dele um slogan.

No dia que foi divulgado o aumento do salário desta gente, tive uma reação esquisita. Não consegui sentir ódio. Senti-me engasgado. O que ficou na garganta? Um nó composto por tristeza, melancolia, frustração, sentimento de impotência.
A confusão de sentimentos fica ainda mais intensa quando se observa o currículo acadêmico da maioria dos distintos. Enquanto, nós, pobres brasileiros mortais, precisamos estudar, e muito, para sermos admitidos nas empresas e termos argumento para pleitear salários melhores, eles precisam saber, no máximo, assinar o próprio nome.

O nó vai ganhando cada vez mais volume ao ver que os distintos se digladiam, não por projetos que beneficiem a população brasileira, mas que canalizem recursos para serem geridos pelos seus partidos.
Enquanto os custos parlamentares chegam aos bilhões de reais, a população é aviltada em direitos fundamentais. Enquanto eles querem saber qual cargo será dado para o 'Zé' e o 'Jão', brasileiros são tratados como bicho na cidade de Bacabal, no Maranhão, Estado de José Sarney, ex-presidente da República e presidente do Senado pela quarta vez!

Como cristão, sei que a Bíblia ordena sobre a necessidade de pedir a Deus em favor desses senhores, mas, confesso que não é um exercício fácil a obediência a este preceito. Se acredito que alguém preste? Acredito. Mas ainda não fui apresentado, formalmente, a eles.
Neste particular, preciso apelar ao recurso da fé de que, no meio de tanta laranja podre, exista alguma saudável. Por esta fé, coloco um pouco de bálsamo na minha ferida de cidadão e apego-me, com força, à crença de que os honestos existem, só não tiveram oportunidade de se manifestar ainda. Quem sabe um dia?
 

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