27 de janeiro de 2011

O devido valor das coisas

Frequentemente, damos muito mais atenção e reclamamos pelo não conquistado do que agradecemos pelo já construído. Dedicamos tempo e esforço em demasia blasfemando pelo que deu errado, ao invés de tentarmos descobrir como pode dar certo.

Já temos discurso pronto para dizer: 'oh, como sofro!' com direito a ter as costas da mão direita apoiada sobre a testa e outra na altura do peito. O dramalhão mexicano parece ser um recurso de interação social. Quer de modo voluntário ou involuntário, parece que tentamos usar as próprias mazelas para nos justificarmos, ganharmos a complacência de alguém, ou seja lá que objetivo se almeje alcançar com isso.

Enquanto gerenciamos muito mal o nosso tempo e recursos observando o que nos falta, a nossa visão se embota e não conseguimos notar o que já nos foi dado. Se começarmos pelo elementar, a vida, fica fácil perceber como erramos neste aspecto.
Por incontáveis vezes deixamos de desenvolver uma postura de gratidão pelo simples funcionamento do corpo humano. O rompimento de uma única artéria pode trazer danos irreversíveis ou até mesmo a morte, mas não nos damos conta da explosão de milagre que há a cada momento que abrimos os olhos depois do período de descanso.

Infelizmente, talvez tenha sido por isso que o rei Salomão tenha escrito que "É melhor ir a uma casa onde há luto do que ir a uma casa onde há festa, pois onde há luto lembramos que um dia também vamos morrer. E os vivos nunca devem esquecer isso." (Eclesiastes 7:2 - versão na Linguagem de Hoje).

O rei judeu acertou no seu registro. Mas, em quantos velórios teremos que ir ou quantos relatos de morte vamos ter que ouvir para explodirmos em gratidão a cada nova aurora? Será que só mudamos a postura diante do espetáculo da vida quando a morte mostra sua força democrática? Afinal, ela não faz distinção de cor, sexo, classe social, religião ou qualquer outro argumento idiota que usamos para nos separar.

A lista de fatores que deveríamos observar pode se estender ainda mais. Quantas vezes nos deixamos dominar pela ira quando os nossos filhos nos desobedecem ou fazem opções que nos contrariam? Os momentos de insanidade, ainda que brevíssimos, comumente nos fazem soltar palavras que podem ferir os herdeiros de nosso código genético.

E se, por um momento, nos colocássemos no lugar daquele que não pode gerar filhos. Ou ainda daqueles que perderam todos eles numa tragédia como na região serrana do Rio. Se fizermos isso, talvez os nossos olhos sejam limpos e consigamos olhar para nossos filhos com um nova perspectiva e discernir o devido valor que eles têm.

O mesmo se dá com os amigos. É comum fazermos escolhas tolas de querermos nos isolar porque um adágio de teor duvidoso afirma: 'antes só do que mal acompanhado'. As más companhias existem, é verdade. Contudo, as boas companhias estão aí para serem descobertas e exploradas em sua riqueza e profusão.

Se falarmos de trabalho, emprego, patrão, chefe etc aí pronto. Dá até coceira. Mas, convenhamos, temos que ser gratos por termos onde ir para garantir o nosso pão. Se considerarmos aquele ou aquela que está há semanas, meses ou até anos em busca de uma fonte de renda convencional, vamos perceber o quanto temos sido ingratos.

Não sou adepto do argumento de que, sendo grato, vou simplesmente trabalhar para manter tudo como está. Não, não e não! Sempre podemos crescer, aprender, avançar. Nossos relacionamentos sempre podem ser melhorados, enriquecidos e aprofundados. Tudo depende do real valor que damos ao que já temos. As outras conquistas não deverão se tornar mais fáceis, mas com certeza serão mais abundantes se desenvolvermos a gratidão como estilo de vida.

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