10 de fevereiro de 2011

Medo de si

Se não nos encaramos, não somos capazes de amar

Sempre fui inculcado com o elevado grau de importância que Deus estabelece no relacionamento entre os seres humanos. Quando perguntado sobre o grande mandamento, Cristo respondeu: "Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu pensamento". Ele complementou: "E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo". (Mt. 22.37)
A Bíblia, ao contrário do que afirmam os céticos, apresenta o amor divino. Contudo, não basta a repetição do óbvio: Deus ama o homem.

O apóstolo João, aquele que colocou a cabeça no peito de Jesus para perguntar quem o havia traído, escreveu: "Se alguém diz: Eu amo a Deus e aborrece ao seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também seu irmão" (I Jo. 4.20 e 21).
A forma clara, como coloca o apóstolo do amor, dispensa comentário. Parece até conta aritmética: 2+2=4. Não precisa ser nenhum teólogo para entender o que ele escreveu.

Considerando que –salvo os ateus– a grande maioria de nós acredita em Deus e tenta obedecer seus preceitos, por que é tão difícil amar ao próximo? Por que é tão difícil perdoar quando ele nos machuca?
Por que é tão difícil reconhecer que quando alguma coisa deu ou está errada em casa, no trabalho ou em qualquer ambiente de atuação coletiva, temos alguma parcela de culpa na falha do processo? Tenho absoluta convicção que as respostas não são únicas para estas questões, mas quero arriscar ao menos uma. O motivo para sermos tão intolerantes uns com os outros é o medo de nos encararmos.

O mandamento é amar ao próximo como a si mesmo. Ora, se eu não tenho coragem de olhar para dentro de mim e fazer as faxinas necessárias, se não tenho coragem de admitir minhas limitações, se tenho medo de reconhecer que dependo dos outros, se sou incapaz de fazer uma auto-crítica para ponderar, com o mínimo de racionalidade, em que preciso melhorar, é evidente que nunca terei a possibilidade de amar ao próximo, pois não amo sequer a mim mesmo.

Isso porque, se tenho amor a mim mesmo, não posso ter medo de encarar o reflexo da minha alma. Se realmente tenho amor a mim mesmo, não posso fugir da hora da faxina na mente e no coração para jogar fora tudo o que não está de acordo com a bagagem de alguém que quer ser livre no corpo, na alma e no espírito.
Se você convive com alguém que se acha 'perfeito, infalível, impecável', pode ter certeza que esta pessoa não tem amor a si mesmo. Sendo assim, também não espere amor dela. Embora seja difícil –reconheço–, é necessário desenvolver amor por esta pessoa na expectativa que, um dia, seus olhos turvos sejam curados e ela possa ter coragem de se enxergar e, finalmente, amar.

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