16 de setembro de 2010

Indignação

Frequentemente sofro com os processos eleitorais. Os motivos para isso são vários: poluição sonora e visual, sujeira nas ruas, caixas de correspondências entupidas, papéis, promessas, picaretagem profissionalizada e outras mazelas que são justificadas como 'parte do processo democrático'.
A cada eleição, ao contrário do que alguns insistem em dizer, sinto-me remando contra a maré. Tenho a sensação de que ao invés de avançarmos no exercício desta tal democracia, tenho a nítida percepção de que paramos, ou, o que é pior, passamos a andar para trás numa velocidade incrível.

O pleito deste ano parece que está reforçando meu sentimento de fraqueza, impotência, indignação e, talvez, da minha própria incompetência como cidadão. Os motivos para esse caldeirão de sentimentos são múltiplos. Vejamos:
1) O número de artistas-candidatos multiplicou como nuvem de gafanhotos;
2) O horário para propaganda partidária no rádio e na TV se tornou um mega circo eletrônico, com figuras como Tiririca e o candidato do "peroba neles";
3) Tem até atriz pornô como candidata a deputada federal por São Paulo!;
4) A falta do mínimo de qualificação para os candidatos. É possível encontrar até analfabetos entre eles!

Quanto a este último tópico, sem nenhum exagero de linguagem, sinto subir um ardor pelo pescoço de tanta raiva quando lembro que não é preciso ter nenhuma qualificação para chegar a cargos que definem o futuro de milhões de pessoas.
Este ano, dos 19.458 candidatos, quatro são analfabetos; 109 apenas lêem e escrevem; 658 têm Ensino Fundamental incompleto; 1.427, Ensino Fundamental completo; 667, Ensino Médio incompleto; 5.245, Ensino Médio completo; 2.078, Ensino Superior incompleto; e 9.270, Ensino Superior completo. Ou seja, a maioria –mais de 50%– parou no meio do caminho quando o assunto era estudar.

Ora, para ser engenheiro, são necessários ao menos cinco anos de estudos, muitos livros e muitas horas de estágio com todas as comprovações possíveis. Depois de muito tempo como estudante ou estagiário explorado e muito dinheiro aplicado para tentar 'ser alguém na vida', o ganho médio de um engenheiro é de R$ 5.096,50 por mês.
Embora o Supremo Tribunal Federal tenha abolido a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista, as empresas jornalísticas que são sérias vão continuar optando por profissionais que cursam ou cursaram Comunicação Social com enfoque em Jornalismo.

Ao contrário dos engenheiros, jornalistas e outras centenas de profissões que só podem ser exercidas por quem fez curso superior, pós-graduação, especialização, mestrado ou coisa que o valha, para ser deputado, senador ou presidente da República não é preciso estudar! É o caminho mais fácil para fazer um pé de meia sem ter que enfiar a cara nos livros.
Mesmo assim, o último aumento dos soldos dos legisladores nacionais, aprovado em 2007, determinou um aumento de 28,53%. Assim, o salário deles passou de R$ 12.847,20 para R$ 16.512,09. Eles ganham mais que o presidente da República que recebe R$ 11.420,21. Isso, sem contar outros valores que são para 'ajudar' o pobre legislador a fazer o que eles chamam de trabalho.
Cada congressista chega a custar R$ 100 mil por mês. Só para estimular o cálculo, é bom lembrar que são 513 deputados federais e 81senadores. Faça as contas.

Apesar de tudo, o que nos resta é estudar (e muito) para fazermos mais pelo país do que esses indivíduos que vendem competência, contudo, são a materialização da inoperância.
 

9 comentários:

Admilson Almeida disse...

Compartilho de sua indignação, companheiro Emanuel.
Não é por menos que houve a proibição das reportagens humorísticas envolvendo os candidatos. Seria muito material pra que os meios de comunicação comportassem.
Graças a Deus, que me livrou de ter que votar esse ano. "0000" seria meu número para todos os candidatos.

Jônathas Arantes disse...
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Jônathas Arantes disse...

Nobre amigo Emanuel, sempre que possível estou lendo e acompanhando seus textos.
Achei essa composição muito sugestiva, oxalá a mesma pudesse circular nos grandes jornais e nos mais variados canais jornalísticos.
Isso aguça a reflexão racional acerca do estado de "nossa política" e nos faz repensar os seus valores.
Será que existem?
Um grande abraço meu irmão!
Paz sobre sua vida!

Marcia Matos disse...
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Marcia Matos disse...
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Marcia Matos disse...

Salve, salve, Emanuel

sabe, tinha uma época que eu não saía de casa sem ter chorado um pouco pelo caminho, porque dos 11 aos 18 eu me chocava muito com as coisas que eu via. E isso nunca foi depressão. Depressão é uma covardia moral, como já o disse Lacan. Mas hoje em dia, um diagnóstico bastante comum, que não se trata, se dopa. Quando entrei na faculdade me senti maravilhada pela possibilidade desenvolver uma profissão e poder intervir na ordem das coisas. Entre jornalismo, política, filosofia e psicologia, eu tinha 17 anos recém completados qdo comecei a estudar psicologia. Chegando ao final do curso superior eu estava indignada era sabe com o quê? Com o discurso repetitivo universitário em querer que o saber seja reproduzido pra "passar", para constar, e que na prática sempre seriam inviáveis as utopias, as ideologias. Saí da faculdade cansada do discurso científico, de homem estatístico de senso comum, do homem visto como padrão, quadrado e manipulável como um fantoche, teorizado a partir de premissas imaginárias, das diversas ciências, mas tidas como verdades absolutas. Pois a ciência é isso: só trata da parte do homem que se repete entre os demais, daquilo que os iguala, os achata. E a outra parte do homem? Daquilo que ele tem de diferença? Todo sujeito carrega em si uma exceção, algo singular e original, que na nossa sociedade ocidental não há definitivamente espaço para ela. Porque cantar no côro é mais confortável e cômodo. A ciência é uma conversa para côros. E isso é uma loucura! Tanto quanto a que a gente nota na política do nosso país, por exemplo. O discurso universitário te pede que entre no côro da normalidade o tempo inteiro. E de tanto massificar, se anestesiam de si, de sua singularidade, conseqüentemente de crítica, de raciocínio, de escolhas. Até isso, de parecer normal as insanidades que a gente acompanha no meio não só político, mas mundial. A gente nasce num mundo que não foi a gente que fez e quando quer mudar algo nele todo mundo se incomoda. Ninguém quer a sua diferença, ninguém quer a tua opinião, a não ser que ela aumente o côro de alguém. Então, a tua diferença ninguém vai pedir, vc tem que marcá-la no mundo de alguma forma, e se responsabilizar por ela. O que nos pedem sempre é para repetir o velho modelo e virar papel de parede do cenário mundial, na vida, bem padrão e de preferência de senso-comum. E o que eu conferi, é que esse discurso vem exatamente da universidade! Um profissional não se forma apenas na sala da faculdade, embora precise SIM, SEM DÚVIDA ter passado por lá, pela faculdade sim, para reinventá-la, melhorá-la e até mesmo criticá-la.

Marcia Matos disse...
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Marcia Matos disse...

Desde 2001 passei a estudar psicanálise, a Lacaniana, que é de onde referencio a maior parte destas idéias, mas não como pragmatismos, mas por tê-las em mim, na carne, desde muito pequena e de repente conhecer alguém que "trate sobre tudo isso": Lacan. A psicanálise é o único saber que eu conheço, que implica e considera a singularidade de um sujeito. E por isso mesmo ela não é considerada ciência, por não ser uma experiência repetida a vários, mas do um a um. Assim o é também nas artes. Eu vejo nisso o seu grande mérito, embora muitos pensem ser caráter de descrédito. Ela é feita de princípios, não de regras. Assim como o que faz um bom profissional e um sujeito é a sua ética, seu princípio, e não sua "boa repetição". Então fico pensando, que o que talvez falte no mundo, não seja necessariamente, gente estudada, mas gente querendo marcar o mundo com a sua diferença, querendo reinventá-lo, construí-lo, e isso só acontece se a gente dá conta de, entre todas as regras, apesar delas, criar, ousar, lapidar nossa sensibilidade e colocá-la a serviço de coisas criativas, singulares e bonitas. Lendo Rousseau, sobre um ensaio seu sobre a origem das línguas, ele comenta que a sociedade civil, teria se originado quando um homem cerca uma área, vira a outros e diz: - saiam daqui que esse lugar é meu! E ninguém ter gritado em resposta: - não ouçam esse impostor, que a terra é de quem nasce nela! - Infelizmente ninguém atinou sobre isso, se viraram às pressas e foram cada um cercar um bom pedaço de terra que lhe aprouvesse. Então, Emanuel, a democracia faliu aí, pra meu entender. E essa discussão na universidade é uma hipocrisia, assim como todo discurso da ciência, assim como grande parte da sociedade ocidental “hipermoderna”, que é feita ao homem padrão, médio, tosco e de senso-comum. Com isso eu concluo que entre os covardes ou não-covardes, a ciência é feita sobre a medida da covardia, daquilo que não se arrisca fora da média, no tosco e no senso-comum que todo mundo tem e que preguiçosamente prefere deixar ligado no automático, porque pensar, escolher e usar da nossa diferença tem um preço, o da responsabilidade. Não é tão mais simples repetir o que alguém já fez? Então eu divido as pessoas em duas: as que estão vivas e as que estão no papel de parede. E o que eu quero te dizer é que eu fico feliz em ter com quem conversar de vez em quando, ao invés de olhar para as paredes.
Um grande abraço, Marcia Matos

Marcia Matos disse...
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