30 de novembro de 2010

'EUquipe'

Durante o julgamento de Jesus, a narrativa bíblica feita pelo evangelista Mateus cita uma passagem curiosa com a mulher de Pilatos. Sem nome, sem genealogia, sem origem, sem destino pelo menos no texto bíblico, ela aparece dizendo a Pilatos: "Não entres na questão desse justo, porque num sonho muito sofri por causa dele." (Mt. 24.19).

Mesmo sem ter mais detalhes sobre o que ela teria sonhado, vale ressaltar sua prontidão em se aproximar do marido e apresentar sua solicitação. Os registros históricos apontam o nome desta mulher como sendo Cláudia Prócula.
Embora Pilatos, presidente da Judeia, não fosse lá flor que se cheirasse, junto com a mulher, seus escravos e, provavelmente, alguns vassalos formavam uma equipe. Como integrante da mesma, a esposa resolveu dar uma recomendação ao marido para não fazer mal a Jesus, isto é, não condená-lo à morte.

Por fatores que transcendem o jogo político presente no julgamento e condenação do Mestre da Galileia, Pilatos não quis ou realmente não pode dar atenção ao conselho da mulher.
Num gesto teatral, lavou as mãos diante da multidão. Segundo a tradição, Pilatos ele teria ficado neurótico a tal ponto que tempos depois, sempre pedia água e bacia para lavar as mãos até cometer suicídio, em 37 d. C., após cair em desgraça junto ao imperador Calígula.

A morte do Cristo era um fato inevitável. Com ou sem Pilatos, com ou sem pedido de sua mulher, o Cordeiro de Deus, segundo exclamou João, o Batista, iria morrer no lugar dos homens para poder cumprir o plano de reconciliação com o Criador.
Contudo, o incidente familiar sugere algumas reflexões. Infelizmente, muitos membros das equipes familiares ouvem a todos, exceto a quem interessa.

O marido acha sempre a mulher uma tonta. Esta por sua vez, acha-o um turrão. Os filhos acatam o que diz qualquer marginal, mas quanto ao que diz seus pais ou são reticentes ou absolutamente desobedientes. E mesmo os pais, jamais se permitem ouvir o que estão dizendo os seus principais atletas: os próprios filhos.
Sob estas condições, o que deveria ser uma equipe, torna-se uma 'EUquipe'. Ou seja, 'quem sabe de tudo sou eu', 'ninguém manda na minha vida', 'eu sei mais e melhor que todo mundo'. Tudo é pensado, falado e feito conforme interesses individuais, com propósitos nada louváveis.

Este 'egocentrismo' tem gerado verdadeiros monstros no seio da família que, inevitavelmente, estendem seus comportamentos em outros grupos sociais. Assim, encontramos na igreja, na escola e no trabalho pessoas que sofrem com o mesmo mal de Pilatos e jamais dão atenção para orientações que são muito mais fáceis de serem cumpridas do que as escolhas alopradas de quem prefere viver segundo regras da 'equipe-de-um-homem'.

Em uma sociedade machista, é fácil o marido se posicionar como o incontestável. Em uma sociedade que valoriza a opulência e a ostentação, é fácil um líder acreditar que todos os seus liderados são xucros demais para contribuir com ele. 
Até mesmo em grupos religiosos, onde o que se deve procurar vivenciar é a humildade ensinada e praticada pelo Cristo, o que se vê com relativa facilidade e frequência é o comportamento diametralmente oposto com a desculpa torpe de que existem aqueles que 'têm mais acesso ao céu do que outros'.

Quem forma as 'EUquipes' por aí, até se ilude com um pseudo sucesso que vem disfarçado de bajulação e fama. Pelo engano que toma o líder da 'EUquipe', passa-se até a acreditar que é possível dominar uma massa. Mas, no fundo, é uma pessoa que não domina sequer o próprio espírito.
Sejamos, pois, membros de boas equipes reconhecendo sempre que todas as pessoas do menor ao maior, do mais rico ao mais pobre, do livre-docente ao analfabeto, todos são indispensáveis para o progresso desde a família, até de um país.

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