1 de junho de 2011

Lições da morte


Um maravilhoso momento vivido em Ouro Preto/MG

No último 1º de junho, cheguei à soma de 6.209 dias em terras paulistas, ou seja, 17 anos plantado para florescer por aqui. Em anos anteriores, nesta mesma época, trouxe à memória bons e maus momentos aqui vividos. Este ano, infelizmente, o fechamento deste ciclo anual ganhou um novo componente de tristeza que será lembrado enquanto eu viver.


Por motivos que somente ao Todo-Poderoso cabe a revelação de respostas aos inúmeros porquês que se instauram, acompanhei o sepultamento do amigo Vane de Oliveira, 31 anos, colega do curso de Jornalismo na Faculdade Campo Limpo Paulista.


Não quero relatar a covardia que forçou seu espírito a abandonar o corpo e não mais voltar. Prefiro ater-me às lições que uma separação desta natureza nos impõe e recordar as coisas que foi possível extrair da bagagem deste viajante que embarcou no trem que nunca se cansa de ter novos passageiros, o trem da morte.

No momento de seu sepultamento, fui testemunha da dor lancinante de sua mãe, que era amparada pelo pai e irmão de Vane. Misturado às dezenas de familiares, amigos, colegas de trabalho e da faculdade, observei o recolhimento do astro rei que lançava sua luz alaranjada sobre aquele quadro de despedida.


Como a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e certeza das coisas que não podem ser vistas, recorri a ela e lembrei-me de uma promessa feita pelo próprio Criador de que, um dia, Ele limpará de nossos olhos toda a lágrima e viveremos de modo a nunca mais ver os efeitos da morte tampouco sentir dor.

Enquanto o sol se escondia atrás da montanha e o corpo do meu amigo era cuidadosamente guardado sob o solo, um turbilhão de cenas foi ativado em minha mente. Além da memória fotográfica que entra em trabalho profuso e resgata desde o momento mais boçal até o mais sério, a despedida a um amigo mergulha-nos em reflexões, análises, deduções até que, finalmente, toma-se algumas decisões. Essa avalanche mental é como se, em sua súbita passagem, a morte deixasse suas lições.

É claro que cada indivíduo tira a lição mais pertinente à sua história. Contudo, existem pontos em comum que, se compreendidos e praticados, podem nos tornar melhores alunos da vida, sempre constante, e não apenas da morte, sempre tão furtiva.


Entre os pontos comuns de aprendizado, saltam aos meus olhos que 1) vale a pena aproveitar cada momento e saboreá-lo como se fosse o último da vida medida pelo espaço de tempo que aqui permanecemos; 2) vale a pena praticar o amor a qualquer preço, pois o possível lucro de uma derrota motivada pelo ódio não é nada se comparado aos dividendos das vitórias conquistadas pelo amor.

Infelizmente, este é o tipo de perda irreparável. Vane se foi e não volta mais. Agora, o que resta são as lembranças. Vou sempre lembrar os "pega-pra-capá" por causa das atividades não concluídas da faculdade, da baixa frequência às aulas, do vício em sexo e bebida, da irresponsabilidade ao volante (apesar da destreza irrefutável). Ainda que divergíssemos, arbitrariamente, sobre questões como Deus, fé, Bíblia, igreja etc sempre foi possível a interação que permitia o crescimento pessoal e profissional.

O fato de ter sido obrigado a sepultar o primeiro contemporâneo --sempre fui a velório de pessoas mais velhas, nunca de alguém da mesma faixa etária--, ativa um gatilho novo para mim. A percepção de algumas coisas se tornam mais claras. Por isso, como parte das lições aprendidas, quero conjugar diferente os verbos "querer" e "dever" usados por Sérgio Britto, na composição "Epitáfio", gravada pelos Titãs. Não quero conjugar os verbos no pretérito imperfeito, queria ou devia, mas no presente, quero e devo.

Assim, DEVO amar mais, chorar mais, ver o sol nascer. DEVO arriscar mais, errar mais, fazer o que quero fazer. QUERO aceitar as pessoas como elas são, pois cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração. DEVO complicar menos, trabalhar menos, ver o sol se pôr. DEVO me importar menos com problemas pequenos e morrer de amor. QUERO aceitar a vida como ela é, pois a cada um cabe as alegrias e a tristeza que vier.

Sobretudo, QUERO e DEVO ser mais grato a Deus por cada pessoa que Ele coloca em meu caminho. Quer sejam para breves momentos como foi o Vane ou para momentos mais longos com alguns com os quais poderei somar, quiçá, décadas em suas companhias.

QUERO ser mais sensível à dor e à alegria de quem me cerca, quer eu conheça há algumas horas ou há 20 anos. DEVO ser melhor parceiro de jornada e, caso veja alguém cair, QUERO ter condições de ajudá-lo a se levantar. QUERO ser menos beligerante, ser mais pacificador e assim ser mais parecido com Cristo. QUERO ser menos pretencioso em almejar a subserviência alheia e, antes, ser o melhor serviçal que meu próximo possa ter.

Embora a morte deflagre tanto aprendizado, o que QUERO e DEVO é ser melhor aluno da vida. Essa é minha homenagem à breve vida que o amigo Vane compartilhou comigo.

3 comentários:

Fernanda disse...

Muito triste...
Apesar de nunca ter sido tão próxima do Vane, fica aquele vazio.

Taniamadu disse...

Que lindo Manu! Suas palavras expressam o que muitos gostariam de dizer. Faço de suas palavras, quanto a aproveitar todos os momentos da vida como se fossem os últimos, o meu lema. A vida passa em um instante, e infelizmente são em momentos de perdas como essa, de pessoas queridas, que paramos por algum momento para refletir nossas vidas. Obrigada meu querido!

Rafael Tavares disse...

Com uma forma simbólica de lembrar nosso colega sugiro que no TCC não tiremos o nome dele. No trabalho que a Maria Auxiliadora, com dor no coração pelo ocorrido, adiou para ser entregue na semana que vem não vou tirar. A minha última lembrança que tenho daquele maluco foi no trabalho das Agências em que ele brilhantemente foi nosso repórter. Ele deu trabalho, mas foi maravilhoso. Vou sempre lembrar deste dia maravilhoso.

 
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