9 de janeiro de 2010

O que aprender na tragédia?

As tragédias que marcaram o início de 2010 prenunciam que os nossos desejos de paz, saúde, prosperidade, felicidade, amor etc, serão duramente solapados ao longo das horas, dias, semanas, meses e dos próximos anos. A despeito de todo otimismo que procura nos visitar, as perdas, mortes, destruições que vemos estampados nos jornais parece dizer o contrário de todas as nossas expectativas.

O ano nem bem havia começado, e às 3h30 da manhã do dia da Confraternização Universal morriam em uma situação horrível mais de 50 pessoas em Angra dos Reis. Praticamente algumas horas depois, começamos a receber notícias das cidades de Cunha, São Luiz do Paraitinga, Atibaia, Agudos-RS que parecem nos dar um cenário apocalíptico.

Que fazer? Deixar o desespero tomar conta? Reclamar para Deus e "ficar bravo" com Ele como disse um casal de Jundiaí que estava em Angra? Confesso que na minha limitação e finitude humanas falta compreensão para perceber quais ensinamentos o Todo-Poderoso quer nos proporcionar. Como medíocres mortais, nesses momentos a opção é nomear um culpado. Seja ele o próprio Criador ou então alguma autoridade viva ou morta. Contudo, infelizmente, as vidas ceifadas só podem ser veladas, lembradas e homenageadas. E nós, que ficamos vivos, que nos resta?

Por mais que a reflexão nos faça gemer, pois ela pode mexer em feridas, precisamos parar e pensar um pouco. Tudo o que vemos e ouvimos é fruto de erros nossos e das gerações anteriores. Quais foram os erros? São tantos que não dá para relacionar. A nós resta a tentativa de acertar, corrigir minimamente alguma coisa nesta trajetória.

No meio de tanta dor e destruição, acabei vislumbrando algumas belezas que o ser humano ainda pode expressar. Confesso que desabei em lágrimas por tomar conhecimento das mortes em Angras, do desespero da população de Paraitinga com água no teto do segundo andar de suas casas, do isolamento da população de Cunha. Mas as lágrimas também expressaram minha alegria solitária ou ler, ouvir e assistir os relatos de quem se voluntariou para estender a mão ao próximo.

Pessoas anônimas como Leonardo da Silva Camargo, de 27 anos, morador de um bairro na Zona Oeste de São Paulo que, junto com mais os amigos recolheram donativos para tentar encher um caminhão. A programação é chegar à cidade dia 9, se acomodar em um acampamento e no domingo, 10, colocar a mão na massa e ajudar na limpeza das mil toneladas que devem ser retiradas da cidade de lixo e entulho.

O metalúrgico Luiz Francisco de Paula, de Taubaté, fez uso do banco de horas para ser voluntário na cozinha e preparar refeição para 3 mil pessoas. Num ritmo de trabalho que envolve 10 voluntários das 7 da manhã às 2horas da madrugada, Paula e os companheiros expressam o melhor da natureza humana.

Assista vídeo:




Em meio ao caos encontrei consolo nas ações de pessoas como esses que citei. Existem outras dezenas de pessoas que jamais conheceremos os nomes ou veremos os seus rostos estampados em fotos ou vídeo, mas elas socorreram alguém, levaram uma doação, deram um abraço, choraram junto com quem estava sentindo dor. No meio desta tragédia o primeiro aprendizado que entendo possível é isso: somos gente. Apesar da frieza, e individualismo que tem marcado o nosso tempo, quem sabe as tragédias não sejam o pior meio para que entendamos a necessidade de repensar nossos relacionamentos?

Gosto do que recomendou o apóstolo Paulo: “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Romanos 12:15). Contudo, reconheço que estamos muito distantes de cumprir este conselho no cotidiano. Em geral, pouco nos importamos com as conquistas do próximo e meneamos a cabeça com as suas dores. Que 2010 e os anos futuros nos vejam tomar uma postura que dignifique o nosso rótulo de “humanos”. Que a solidariedade não seja exceção, mas regra. Que a atenção ao próximo seja constante, as mãos nunca se recolham, a sensibilidade não diminua e que o amor cresça qual árvore plantada junto ao córrego.


Equipe de rafting evita mortes e salva dezenas de pessoas em São Luiz do Paraitinga.
Veja vídeo:

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