29 de outubro de 2009

Quem fez isto?

Podemos e devemos aprender a reconhecer o trabalho dos anônimos


Emanuel Moura

Em uma sociedade movida pela espetacularização de tudo e todos, parece que ser discreto e, anônimo, é uma espécie de castigo.
Desde que os "15 minutos de fama" passaram a ser buscados com o ardor de quem precisa sobreviver, parece que a coisa mais importante na vida é ser famoso, se tornar celebridade, dar autógrafo, ser fotografado.
Ultimamente, até na hora do parto as pessoas se deixam fotografar e filmar para mostrar o quanto descabeladas e suadas ficaram para dar à luz.


Em tempos de Orkut, Twitter, Facebook, Myspace, YouTube, BigBrother, A Fazenda, Ídolos e outras tantas quirelas do mundo da Internet e da TV, parece que a coisa mais importante no mundo é ser notícia. É fazer com que todas as pessoas saibam da existência, feitos, manias, excentricidades de cada um.


Se não somos assim, estamos sempre à espreita para "espiar" a vida de quem se expõe ou é exposto alheio à sua vontade. Entretanto, ao contrário do que a espetacularização midiática possa apresentar, o mundo não é movido por quem aparece. Muito pelo contrário, o mundo se move por quem não se vê.


Gostamos de viajar. Quando possível, optamos pelo avião. Mas, quantos pilotos nos demos o trabalho de conhecer? Muito mal e porcamente às vezes nos lembramos do motorista de ônibus. No entanto, sem essas pessoas, a tal viagem não seria possível.
Nunca queremos que o transporte coletivo apresente pane e pare no meu do caminho para o trabalho, escola ou mesmo o lazer. No entanto, quando a viagem acontece sem transtornos, nunca queremos saber quem foi o mecânico que, com seu trabalho anônimo e silencioso, garantiu o funcionamento perfeito daquele veículo.


Gostamos de sentar no restaurante e sermos bem servidos. Saborear um prato com a dose certa de condimentos, ao dente, bem passado, mal passado etc. Mas, quantos chefs de cozinha nos propomos a agradecer pelo excelente prato que consumimos?
Queremos andar em nossas cidades e encontrar tudo muito limpo. Sem mato, sem papel no chão, sem lixo amontoado. No entanto, sequer oferecemos um copo d'água para o anônimo que passa com a vassoura e o balde limpando tudo. Também não fazemos o menor gesto de reconhecimento para os operários que com suas máquinas cortam o mato do caminho que passamos diariamente.


Só nos lembramos dos anônimos quando alguma coisa dá errado. Se o carro quebra, se o avião cai, se o mato toma conta, se vem lagarta na salada, logo temos peito e voz para reclamar. Por menos usual que seja, acredito que podemos melhorar este comportamento e fazer as pessoas cientes do quanto elas são importantes por tudo o que fazem, por mais simples que seja o seu trabalho. Podemos fazer pessoas felizes, semeando gratidão.

4 comentários:

Admilson de A. Almeida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Admilson de A. Almeida disse...

Uma vez recebi um e-mail dizendo de uma pesquisa feita por professor da UNICAMP. Ele lecionava durante um período do dia, e no outro período se vestia de gari para varrer as ruas da Universidade. Os alunos e próprios colegas de trabalho passavam por ele sem o reconhecer, mesmo muitas vezes ele parando o trabalho e olhando para as pessoas que passavam. Ele acabou por denominar esse fenômeno de 'invisibilidade social', ou seja, quando a pessoa, por sua função, não representa nada para a sociedade. Acontece muitas vezes, mesmo conosco, de se esbarrar em um funcionário da limpeza, por exemplo, e não nos darmos ao luxo de pedir desculpas.

Eliseu disse...

É simplesmente assim. Penso que no final das contas esbarraremos com muitas supresas. Muito inspiradora tuia reflexão. Para não!

Rafael Tavares disse...

Mas é por aí mesmo.Só lembramos destas pessoas quando as coisas não estão no nosso agrado. Pois, quando vai tudo bem, ninguém lembra delas. Uma injustiça. Do comentário do Admilson; sim, também vi esta reportagem, parace que foi no Jornal Hoje, da Rede Globo, se não me engano.

 
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