13 de julho de 2011

Maior habilidade: acusação

Passar a culpa de qualquer coisa para outra pessoa parece ser uma atitude simples, mas, na verdade, é algo que exige mais do raciocínio humano do que se possa imaginar. De tão complexa e nociva, essa é uma habilidade desenvolvida desde muito cedo. Como as primeiras disputas acontecem entre irmãos, é nesta arena familiar que os gladiadores começam a enrijecer os músculos do mal.

Exagero meu? Nem tanto. Considere, por exemplo, quando dois irmãos estão no exercício das mais habilidosas peripécias pela casa inteira. Corre daqui, pula de lá, passa por cima, passa por baixo, pendura, balança e, claro, cai. Entre um lance e outro, o prato que estava na pia da cozinha, de peça única para alimentação, vira milhares de caquinhos que talvez sejam úteis para decoração caso o artista adote o mosaico como técnica de produção.

Até que o som do prato estilhaçado ecoe pela casa e antes que a voz da mãe reverber com um sonoro: 'O que é isso aí?!', as mentes dos meninos envolvidos trabalham numa velocidade inimaginável, em milésimos de segundos dão voltas ao mundo. Os quadros reconstruídos pelos peraltas incluem palmadas já recebidas ou castigos anteriores. Diante do horror que se apresenta, a solução que vem à mente dos dois é dizer que a culpa foi do outro. Sorte de quem grita primeiro!

É como nos games televisivos, quem aperta o botão mais rápido tem a chance de responder e pontuar. As mães menos avisadas acabam por dar atenção para aquele que conseguiu levantar a voz de acusação na frente. Dá umas palmadas no acusado –ainda que seja inocente– e deixa o outro livre. Ora, mas se o prato caiu e os dois estavam brincando no lugar que não deviam, a cozinha, logo, ambos mereciam, se não as palmadas, pelo menos um castigo.
Eventos familiares à parte, o quadro que acabo de descrever em maior ou menor escala é reproduzido nos demais ambientes onde gravita o "bicho homem", especialmente os de trabalho.

Qualquer trabalhador que se preze, independente da função que exerça e do grau hierárquico que ocupe, deve procurar a excelência como meta. Isto é, estar sempre em busca de ferramentas, técnicas e desenvolvimento de habilidades que tragam crescimento qualitativo e quantitativo nos âmbitos pessoal e coletivo.
Não faltam grandes discursos, palestras, cursos, livros, sites, CDs, DVDs sobre a importância da criação e manutenção de um ambiente de trabalho colaborativo, no qual as pessoas sejam estimuladas a oferecerem o seu melhor, a crescerem como indivíduos etc. Entretanto, toda essa "poesia corporativa" é desconstruída como castelo de areia em um cotidiano cada vez menos humano e cada vez mais bestial e predatório.

Sem esperança, eu? Absolutamente, não. Apenas com os pés no chão e com os olhos bem arregalados para questões que despencam como rocha incandescente. Apesar do impacto provocado pela mediocridade e covardia da transferência de culpa que vence os limites da infância e invadem os escritórios de trabalho, os campos de futebol, as pistas de atletismo, as raias de natação, os templos religiosos, as ruas e praças da vida, ainda acredito no poder maior e melhor da excelência buscada, vivida e estimulada ainda que por uma minoria.

Infelizmente, não consigo reivindicar o título de "o mais excelente", mas ao menos tento conhecer e comungar com pessoas que, via de regra, são rotuladas como ignorantes, fracas e pobres, mas que, no entanto, mostram-se muito mais conhecedoras, fortes e ricas que muitos boçais que se sentem em pedestais de luxo mas, na verdade, não conseguem ficar mais altos do que um caixote de feira consegue elevar.

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